domingo, 10 de fevereiro de 2019

Ela

"oi

posso entrar?”,

Ela diz

gentilmente

como quem oferece um abraço.


“você está sozinha agora

mas não vai mais ficar”,

promete

se ajeitando

acariciando meus cabelos

e me isolando de todo o resto.


Ela visita de tempos em tempos

e se eu deixar, Ela se alonga

ganha seu próprio quarto

começa a esvaziar a geladeira.


de vez em quando, Ela traz pensamentos

que de cara não sei bem se quero

mas talvez sejam meus pensamentos

não sei mais o que sou eu o que sou Ela

não sei mais o que sou.


mas vamos eu

e Ela

porque a solidão é minha e não dos outros

e é melhor que termine assim.


hoje ouço batidas na porta

elas são cada vez mais insistentes

o que era ritmado já se tornou caótico

como as batidas de meu coração.


e eu digo

“eu sei que você está aí

não quero tomar café hoje

por favor, hoje não.”


as batidas cessam

e penso que Ela se foi

mas logo ouço suspiros

e um riso suave e entretido.


“mas

como você vai continuar me culpando

pelo seu próprio fracasso em viver

se não me deixa mais entrar?”