quarta-feira, 2 de maio de 2018

Sobre o tempo

“Você vai fazer vinte anos”, digo

como se fosse o acontecimento do século.

“Vinte! Isso deve dar uma crise existencial.”


“Nah”, você dá de ombros

como se eu tivesse perguntado

se você gosta de pistache.

“Chega pra todos, né. Não tem por que surtar.”


e eu,

no meio do meu surto de dezoito,

queria entender de onde vem essa calma.


como se lesse meus pensamentos

você diz:

“É que nem quando fiz dezoito, foi de boa

também.”


“Ah, eu tive uma crise de dezoito

ainda estou tendo

na verdade.”


“Por quê?”


“Bom, pra começar,

eu posso ser presa.

Isso é assustador!”


você me abraça e solta um sorriso entretido.

“É, você pode, mesmo.”


continuo te contando

dos meus medos irracionais

e você faz o melhor cafuné do mundo.


eu já te disse isso?

você faz o melhor cafuné do mundo.

é o perfeito mecanismo antissurto

não sei nem como você não surta

sem o seu cafuné.


“Tudo tem seu tempo”, você filosofa

com a sua sabedoria regida pela terra.

e eu, filha do ar,

só consigo sentir que temos todo o tempo do mundo.

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