segunda-feira, 21 de maio de 2018

Cuida bem do meu menino

digo que já vou embora daqui a pouco
logo sua expressão se converge num exímio gato de botas
seu cabelo todo desarrumado
seus olhos grandes cheios de expectativa
quando você me pede para ficar mais um pouquinho, vai.

eu fico
é claro que fico
eu sempre fico.

quinze minutinhos se convertem em três horas
você faz cafuné
eu acaricio sua barba
e algo no jeito que conversamos
não apenas com os lábios
mas com olhares
e sorrisos
e toques
me dá vontade de chamar de amor.

sua mãe me pediu para cuidar de você
soltei um sorriso tímido e um “pode deixar”
mas a verdade é que é você que cuida de mim.

é você que percebe minhas nuances
me faz refletir sobre o que estou sentindo
não deixa que eu me feche na minha cabeça
minha autodestruição latente.

você enxerga o bem em mim
independentemente
até quando tento te convencer de que não sou
tão boa
assim.

te digo que de você eu sempre espero coisas boas
e você me abraça
amorosamente.

minhas barreiras vão voltar eventualmente
mas neste momento elas estão totalmente derrubadas
e eu, que nunca tenho certeza de nada
sei que nada de ruim poderia surgir

aqui
quando eu faço cafuné
e você acaricia minha bochecha
e ah, como eu quero chamar de amor!
mas essa certeza parece incabível aqui.

sua mãe me pediu para cuidar de você
espero que um dia ela se dê conta
de que nunca foi necessário pedir.

domingo, 6 de maio de 2018

Maldito empirismo

Não consigo pensar no futuro sem pensar que nosso fim é inevitável. Acho que já estou sequelada demais para não pensar em tudo como temporário. Não sei quem vai cansar de quem, quem vai se mudar, quem vai ficar sem tempo pra gente, mas eu penso no futuro e penso que eventualmente você não vai ser mais meu contato mais frequente. Seu nome não vai mais aparecer direto quando eu abrir o WhatsApp.
E isso me traz uma tristeza tão grande que até quase acredito que nada disso vai acontecer. Mas o passado fala mais alto. Maldito empirismo! Nunca dura, nada nunca dura, experiência própria, confia em mim. Também não sei por que a gente não vai durar, mas infelizmente é assim que a banda toca. Sinto muito. Já vai preparando a playlist de término, nem me inclui nos seus próximos eventos para não correr risco de a gente se encontrar, pega todas as suas matérias eletivas em uns institutos nada a ver, sabe como é.
E a tristeza volta. Quando estamos sentados em algum lugar totalmente banal e desinteressante, contando histórias, eu arrumo seu cabelo para o lado certo, você solta um “ah é?”, e eu consigo ouvir o sorriso na sua voz, não há nada no universo que me motivaria a sair daqui.
Dizem que o tempo passa rápido quando se está onde quer estar, mas com você o tempo simplesmente para. Tudo em volta desaparece. Só existe a gente, naquele momento, sem passado, sem cicatrizes, sem nenhuma voz que fala por puro empirismo. O maior empirismo que existe é a paz que você me traz.
Não consigo pensar no futuro sem pensar que nosso fim é inevitável, mas você faz o “para sempre” ter gosto de presente.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Sobre o tempo

“Você vai fazer vinte anos”, digo

como se fosse o acontecimento do século.

“Vinte! Isso deve dar uma crise existencial.”


“Nah”, você dá de ombros

como se eu tivesse perguntado

se você gosta de pistache.

“Chega pra todos, né. Não tem por que surtar.”


e eu,

no meio do meu surto de dezoito,

queria entender de onde vem essa calma.


como se lesse meus pensamentos

você diz:

“É que nem quando fiz dezoito, foi de boa

também.”


“Ah, eu tive uma crise de dezoito

ainda estou tendo

na verdade.”


“Por quê?”


“Bom, pra começar,

eu posso ser presa.

Isso é assustador!”


você me abraça e solta um sorriso entretido.

“É, você pode, mesmo.”


continuo te contando

dos meus medos irracionais

e você faz o melhor cafuné do mundo.


eu já te disse isso?

você faz o melhor cafuné do mundo.

é o perfeito mecanismo antissurto

não sei nem como você não surta

sem o seu cafuné.


“Tudo tem seu tempo”, você filosofa

com a sua sabedoria regida pela terra.

e eu, filha do ar,

só consigo sentir que temos todo o tempo do mundo.

terça-feira, 1 de maio de 2018

Exatamente seis

“a gente deveria sair daqui
porque a paulista reabre para os carros
às seis”
“ahã”
nenhum dos dois se mexe.

você faz cafuné no meu cabelo
eu observo um cara tocando violão na outra calçada.

o céu está lindo
tentei tirar foto dele
acabei tirando foto de você
(e quem disse que me arrependo?)

é um fim de tarde de domingo como todos deveriam ser
olho pra você e já sei que não vou chegar em casa na hora que planejei
“posso só morar aqui para sempre?”, tenho vontade de perguntar
estou tão feliz aqui.

você me pergunta que horas são
eu só vejo parcialmente o relógio do outro lado da avenida
“seis e alguma coisa”, respondo
você rebate que acha que são exatamente seis
“exatamente seis”, ecoo
exatamente seis”, você confirma
e diz que daria um belo poema.

exatamente seis
tomando sorvete
tirando sarro de caras com violões
você vive me dando ideia pra poema
será que algum dia eu te mostro algum?

não que algo nesse poema pudesse te surpreender
afinal, a cada dia junto,
minha escrita se torna mais descritiva
nossa poesia se escreve sozinha
conforme a vivemos.

exatamente seis
e nós dois.
sei que você é quem manja de matemática
mas essa equação eu faço questão de decifrar.

(ou talvez
possamos
decifrá-la
juntos?)