terça-feira, 17 de abril de 2018

Concha

nossos pés entrelaçados
eu sigo cada traço seu
cada linha de vida
numa gentileza sem pressa alguma.

acaricio sua barba
toco seus lábios com meu polegar
sinto seu cafuné bem mais gentil
queria eu ser tão leve assim.

seu peito sobe
e acompanho as mudanças rítmicas
sinto sua respiração contra minha face
uma pequena onda de calor.

você me beija e me pego pensando
que você tem gosto de poema
sem rima, sem métrica
poema para ler tomando chá à tarde.

nossas intensidades já diminuem
e o sono já se manifesta
mas continuo ciente de cada movimento seu
como ondas elétricas que me percorrem.

sua mão em minhas costas, puxando-me contra si
sinto-a deslizar devagar
cima e baixo, cima e baixo, melódico como batidas do coração.

já perdi qualquer noção de tempo e espaço
mas após um minuto, ou trinta, ou sessenta
seus lábios se abrem levemente
seus braços se acomodam em um abraço.

já sei que adormeceu
nessa calma que invejo
essa espontaneidade profunda
essa simplicidade envolvente.

ajeito-me em seu peito
conto seus batimentos como quem conta ovelhinhas
e, com o sossego de quem está onde deveria estar
junto-me a você.

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