quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

O jeito que você foi embora

o jeito que você foi embora
revela
tudo.

perfeitamente calculado
como uma lista de tarefas
comparecer após dizer que não iria, check
devolver o livro sem ler, check
acabar com o meu dia, check
ir embora sem nem se despedir de ninguém, check

imagino há quanto tempo
você planejou tudo isso
decerto, tempo suficiente pra se afastar
emocionalmente
psicologicamente
até que virou só um dia normal
um pequeno empecilho para resolver.

veja bem, eu já terminei um namoro antes
e foi uma das coisas mais difíceis
que já fiz na minha vida
como deveria ser,
quando você termina com alguém que ama de verdade.

qualquer um que olhasse de longe pensaria que era ele a terminar
porque era visível meu coração quebrando
não foi planejado
só foi sentido
foi um acidente de trem
colossal
repentino.

você foi o assalto ao banco central
das desilusões amorosas.

sábado, 20 de janeiro de 2018

Essa livraria

essa livraria
sempre me pareceu um lugar excelente
para se apaixonar.

assisto ao movimento enquanto sentada no segundo andar
meus olhos sempre em busca de algo, de alguém
muitas vezes, em busca de qualquer coisa.

eu me apaixonei por ele um pouco mais
nessa livraria
conheci sogros
me senti amada
desapeguei
dei adeus
nessa livraria.

nesta exata poltrona
ri com meu primeiro amor como nunca antes
e nunca depois.

sempre espero entrar aqui e esbarrar em alguém
livros caem
isso é bukowski?
qual sua opinião sobre o amor ser egoísta?

acho que bukowski está certo.

talvez eu nunca tenha entrado aqui com o coração aberto
para deixar que o amor comece
nem consigo entender onde ele começa ou termina
mas pareço estar sempre no meio dele.

a verdade é que essa livraria não possui amor
fui eu quem o trouxe para cá repetidas vezes
em busca de algo
que já estava em mim.

não obstante
continuo sentada
observando o movimento
esperando a comédia romântica acontecer

ela não acontece
mas a poesia sim

dou-me por satisfeita.


"Poetry is what happens when nothing else can." — Charles Bukowski

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Fuvest

tem um menino bonito
sentado perto de mim.
ele tem olhos claros
e está usando calça de moletom,
havaianas
e camiseta de grife.
(talvez o moletom seja de grife também
eu não saberia).

ele trouxe um litrão de água de coco
tem cara de mauricinho
e está prestando direito
“huh
talvez eu devesse ter prestado direito”,
minha mente me sabota.

rapidamente afasto esse pensamento inútil
eu sei que não quero prestar direito
mas minha cabeça parece querer estar em qualquer lugar
que não lidando com o fato de que hoje é o dia.

uma garota que me detesta está nessa sala
ela tem olhos claros
e deve odiar o fato de eu estar aqui
eu a encontro perto do banheiro com o nariz vermelho
e a abraço
e garanto que vai ficar tudo bem.

ela parece acreditar em mim
ou não se importar o suficiente para discutir
acho que nunca vou saber
mas espero ter ajudado um pouquinho.

tem outro garoto
com meias estampadas com uma pintura do van gogh
ele é de longe a pessoa mais descolada daqui
e está prestando algo de exatas.
é interessante quando as pessoas me surpreendem assim.

ninguém conversa com ninguém
sinto esse desejo intenso de entender como cada pessoa chegou àquela sala
quantas histórias estou ignorando com meu silêncio?
será que pensam o mesmo?
querem falar mas têm medo de serem penalizados?
ignorados?
ou estão simplesmente focados na prova à frente
e não ligam para mim?

estamos todos juntos há três dias
que provavelmente são três dos mais importantes do ano
deveríamos sair para tomar um chope
xingar o vestibular
compartilhar histórias
humanizarmo-nos
apesar da tentativa deste processo de nos numerizar e classificar.

esse deveria ser um texto sobre uma prova
mas ainda não a citei nem uma vez.
sinto-me alheia a essas instituições
essas hierarquizações inumanas
acho que eu não deveria mesmo ter prestado direito.

dito isso, não fui particularmente mal em nenhuma matéria
nem mesmo as mais inumanas
quando chegou a hora
concentrei-me
nem sei te dizer se o menino terminou ou não sua água de coco
mas sei te dizer a potência do sol
e a pressão parcial de algum lugar na Bolívia.

eu me agarrei àquela prova como um último resquício de oxigênio
e todos em volta
com suas histórias
inseguranças
peculiaridades
meias do van gogh
desapareceram.

talvez eu veja algumas dessas pessoas nos caminhos da vida
elas vão passar por mim como se não me conhecessem
e não conhecem, mesmo, eu acho
mas como é possível que tenham participado de uma parte tão crucial da minha história?
como pudemos passar por um estresse tão marcante, similar e simultâneo
e elas serem personagens sem sequer nomes? 



"Me dá seu telefone, inimiga
Que é só você que vai compreender
Aquela agonia na barriga
Me liga que eu tô que nem você"
— "Vagabunda", Clarice Falcão