tem um menino bonito
sentado perto de mim.
ele tem olhos claros
e está usando calça de moletom,
havaianas
e camiseta de grife.
(talvez o moletom seja de grife também
eu não saberia).
ele trouxe um litrão de água de coco
tem cara de mauricinho
e está prestando direito
“huh
talvez eu devesse ter prestado direito”,
minha mente me sabota.
rapidamente afasto esse pensamento inútil
eu sei que não quero prestar direito
mas minha cabeça parece querer estar em qualquer lugar
que não lidando com o fato de que hoje é o dia.
uma garota que me detesta está nessa sala
ela tem olhos claros
e deve odiar o fato de eu estar aqui
eu a encontro perto do banheiro com o nariz vermelho
e a abraço
e garanto que vai ficar tudo bem.
ela parece acreditar em mim
ou não se importar o suficiente para discutir
acho que nunca vou saber
mas espero ter ajudado um pouquinho.
tem outro garoto
com meias estampadas com uma pintura do van gogh
ele é de longe a pessoa mais descolada daqui
e está prestando algo de exatas.
é interessante quando as pessoas me surpreendem assim.
ninguém conversa com ninguém
sinto esse desejo intenso de entender como cada pessoa chegou àquela sala
quantas histórias estou ignorando com meu silêncio?
será que pensam o mesmo?
querem falar mas têm medo de serem penalizados?
ignorados?
ou estão simplesmente focados na prova à frente
e não ligam para mim?
estamos todos juntos há três dias
que provavelmente são três dos mais importantes do ano
deveríamos sair para tomar um chope
xingar o vestibular
compartilhar histórias
humanizarmo-nos
apesar da tentativa deste processo de nos numerizar e classificar.
esse deveria ser um texto sobre uma prova
mas ainda não a citei nem uma vez.
sinto-me alheia a essas instituições
essas hierarquizações inumanas
acho que eu não deveria mesmo ter prestado direito.
dito isso, não fui particularmente mal em nenhuma matéria
nem mesmo as mais inumanas
quando chegou a hora
concentrei-me
nem sei te dizer se o menino terminou ou não sua água de coco
mas sei te dizer a potência do sol
e a pressão parcial de algum lugar na Bolívia.
eu me agarrei àquela prova como um último resquício de oxigênio
e todos em volta
com suas histórias
inseguranças
peculiaridades
meias do van gogh
desapareceram.
talvez eu veja algumas dessas pessoas nos caminhos da vida
elas vão passar por mim como se não me conhecessem
e não conhecem, mesmo, eu acho
mas como é possível que tenham participado de uma parte tão crucial da minha história?
como pudemos passar por um estresse tão marcante, similar e simultâneo
e elas serem personagens sem sequer nomes?
"Me dá seu telefone, inimiga
Que é só você que vai compreender
Aquela agonia na barriga
Me liga que eu tô que nem você"
— "Vagabunda", Clarice Falcão