domingo, 31 de dezembro de 2017

Considerações sobre 2017 (ainda estou respirando)

Todo ano escrevo um desses, em verso ou prosa, em música ou diálogo, em saudade ou esperança. Então, qual a grande lição de 2017? Como começar 2018?
Não falamos sobre 2018, porque 2018, pela primeira vez em minha breve existência, não existe ainda. Não sei o que será de 2018. Talvez esteja na faculdade dos meus sonhos, talvez acabe repensando o que seria a faculdade dos meus sonhos. Talvez acabe repensando o que é sonhar.
Em 2017, repensei o que é amar. Eis três palavras que definem a Gabriela de 2017: força, coragem e amor.
Nesse ano, eu ousei me jogar do precipício do amor no qual acreditava há uns anos. Eu me apaixonei e foi absolutamente lindo e absolutamente horrível. Eu me vi consertada e destruída repetidas vezes, eu tive meu último momento de amor adolescente: acreditei em palavras que se provaram não tão sinceras.
Entretanto, tudo bem. Eu aprendi que sou capaz de superar os amores errados, sou capaz de amar novamente. E amarei novamente. Porque, caralho, eu sou forte. E eu me basto. Ouvi desde “Meu Deus, como você tem sorte!” até “Se isso tivesse acontecido comigo, eu estaria trancado em casa há dias”.
Em 2017, eu ousei. Acho que mereço um tapinha nas costas por isso. Eu me posicionei, eu apareci, eu vivi. De oito a oitenta, de bêbada de amor a bêbada de Yakult com vodka, de Lollapalooza a festivais de rock nacional independente na Penha. Eu fiz o que queria fazer e ninguém nunca vai tirar isso de mim.
Vi o show da minha banda favorita com a minha melhor amiga. Enquanto Billie Joe Armstrong gritava enrolado em uma bandeira de arco-íris que o amor vence tudo e pau no cu do Trump, não havia lugar no mundo onde eu preferiria estar. No começo do ano, elegi “Still Breathing” como a minha música do ano, mas nunca imaginei que terminaria esse ano gritando-a no show ao vivo quase sendo arrastada para um mosh. Ainda estou respirando.
Começo 2018 sabendo que sobreviverei. Já diria All Time Low, vida longa aos imprudentes e aos corajosos. Acho que esses dois adjetivos são dois lados da mesma moeda. Tudo se baseia na ousadia de fazer o que é necessário para viver. Viver de verdade, respirar fundo, falar merda, defender alguém, fazer amigos, adotar gatinhos. É coragem quando vale a pena, é imprudência quando não vale (como quando, digamos, o seu namorado acaba se revelando um puta babaca).
Mas esse é o pulo do gato, não é? Nesses textos reflexivos de fim de ano, parece que tudo vale a pena. Isso quer dizer que vou responder à mensagem dele como se nada tivesse acontecido? É claro que não. Porque aconteceu. Essa é a beleza do fim do ano: é o que aconteceu. E talvez não nos beijemos na virada, mas isso não é mais determinante da minha felicidade (e nunca deveria ter sido, para início de conversa).
Comprei um piano. E estou usando óculos novos. Nunca gostei de usar óculos antes, mas agora parece que algo se encaixou, além do fato de meus olhos estarem de saco cheio das lentes de contato. Aprendi a tocar “New Year’s Day” (da Taylor Swift, não do U2, perdoe-me), o que me parece muito apropriado.
A vida continua. É incrível esse sentimento, esse movimento constante. Espero nunca sentir a completa estagnação. Caso isso aconteça, acho que vou ter que comprar mais um instrumento musical. Melhor do que arrumar outro namorado, não é?
2018 é o começo de algo. Consigo sentir. Você sente também? Você sente esse cheiro de revolução? OK, acho que minha alma anarquista sempre sente cheiro de revolução, mas essa é realmente tangível. Talvez seja completamente horrível, mas não será mais do mesmo. E, no fundo, ainda há uma centelha em mim que tem fé de que será o melhor ano de todos.
P.S.: Se no meio disso aparecer um namorado que não dá em cima de todo mundo e que tem uma família legal, considero um bônus do destino. De preferência, que o bônus venha com cachos e um sorriso bonito.
P.S.2: Meu lápis de olho preto continua firme e forte. Algumas coisas não mudam mesmo.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

E se?

Um ode ao ensino médio, a todas as pessoas importantes, baseado em “e se”.

e se eu não fosse canhota e não tivesse mudado de lugar?

e se você tivesse chegado atrasado no segundo dia de aula?
e se eu não estivesse lendo um livro?
e se aquele cara tivesse me dado corda?
e se não tivéssemos ido àquele aniversário?

e se tivessem criado um nível acima no inglês?
e se você não tivesse sentado na minha frente no segundo ano?
e se ele nunca tivesse feito aquela merda enorme e eu não tivesse te contado?

e se eu já conhecesse alguém no primeiro dia?
e se eu tivesse acabado em outro grupo no laboratório?
e se tivéssemos continuado na mesma sala?

e se eu tivesse insistido mais na nossa amizade?
e se eu não tivesse começado a namorar?
e se você não tivesse começado a namorar?

e se você não tivesse morado fora?
e se não tivéssemos sotaques estranhos?
e se não tivéssemos ido àquele show?

e se você não namorasse minhas amigas?

e se você não tivesse sido gentil no inglês?
e se você não namorasse aquele moço?
e se não tivéssemos ido ao congresso?
e se você almoçasse com pessoas diferentes?

e se eu não tivesse sentado perto da sua namorada?
e se eu fosse um gênio em física?

e se eu tivesse conseguido conversar contigo no ônibus?
e se não houvesse mais ninguém com quem conversar?
e se você não fosse apaixonada por ele?
e se você não me culpasse?
e se eu tivesse ido àquele show?

e se vocês dois se dessem bem enquanto estávamos juntos?
e se ninguém tivesse quebrado meu coração?
(e se só tivesse acontecido uma vez?)
e se não tivéssemos combinado de almoçar juntos aquele dia?

e se eu não tivesse ido àquela festa em março?
e se sua família fosse diferente?
e se eu tivesse te beijado ali?
e se eu nunca tivesse te beijado?
e se eu nunca tivesse ido assistir aos esportes?
e se eu não acreditasse quando você disse “eu te amo”?

e se meus amigos descessem para o pátio no intervalo?
e se tivéssemos nos conhecido antes?
e se você não bebesse?
e se ele tivesse te respondido mais rápido?
e se eu não tivesse ido falar com você?

e se minha mãe não se atrasasse?
e se seu pai não se atrasasse?
e se minha vida não fosse uma desgraça que rende muito assunto?

e se eu tivesse passado mal no dia da prova?
e se eu sequer tivesse me inscrito?
e se eu não ganhasse bolsa?
e se não fosse nesse colégio que eu entrei às sete da manhã com meus fones de ouvido retumbando Fifteen?

sábado, 16 de dezembro de 2017

Dia D (te ver)

duas semanas em absoluto pânico
ansiando o Dia D
dia de te ver, talvez
pela última vez.

motivo de felicidade tornou-se ânsia
entrei no salão lotado
e como mágica
ou hormônios
(ou amor)
meus olhos cravaram direto nos seus.

e lá ficaram.
trezentas pessoas
e você reluzia
todo arrumado
cabelo pro lado
um olhar gentil que não achei que veria mais.

e quando você me abraçou depois
um pedaço da minha alma morreu
aqui jaz eu
fruto de um amor triturado
e triturador.

mas eu sorri
plena
anos de teatro bem servidos
classe e segurança que só diplomata tem
nada naquele dia me afetaria
nem mesmo seu cheiro de lar
seu cabelo arrumado
seu sorriso raro
seus elogios convenientes.

por um momento ali
eu quase senti sua falta
odiei o fato de que seria nosso último encontro
você parecia tão sincero e eu só conseguia ser falsa.

o que não é tão ruim assim
você mesmo disse que sinceridade dói
nossos momentos bonitos só o foram porque não eram tão sinceros assim
(que nem você).

você me mandou mensagem depois
como se nada nada nada tivesse acontecido
mas aconteceu
a gente aconteceu
então pau no seu cu.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

A vida continua

nova foto de perfil
sorrindo
a vida continua.

fotos no Instagram de rolês com meus amigos
a vida continua.

músicas novas que nunca tiveram relação com você
a vida continua.

conhecer pessoas novas que nunca te conheceram
a vida continua.

pensar em outra pessoa com o mesmo nome ao ouvir o seu
a vida continua.

mudanças drásticas nos “contatos mais frequentes”
a vida continua.

talvez eu não tenha mesmo que apagar nossas fotos
em vez disso
vou soterrá-las com fotos melhores.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Perfeição

ele é fácil de se gostar
é simpático
conversa com o porteiro sobre a vida
sabe o nome das faxineiras
ele sabe fazer alguém se sentir especial.

ele foi feito para ser objeto de poema
ele encaixa em qualquer rima e métrica
seu nome harmoniza em qualquer ritmo
ele sabe dar o sorriso certo.

ele até te faz pensar que isso é evento astronômico
cometa raro, estrela cadente
ele sabe fazer alguém se sentir especial
mas não sabe tornar alguém especial.

ele transita pela vida como barato químico
efeito temporário de contínua dependência
conexão rara compartilhada entre ele
e todo o resto do universo.

quando ele diz “para sempre”
é impulsividade momentânea
é o momento que “o amor bate”.

e o amor?
quando ele diz “amor”
nada mais é do que o preenchimento momentâneo
das necessidades afetivas.

e se essa banalização emocional não te incomoda
se você consegue tratar “eu te amo” como “bom dia”
eu me compadecia com a sua causa
mas ele é muito fácil de se gostar.

e existe um limite psicológico
de quantas vezes alguém pode impulsivamente te dizer que você importa
até você começar a acreditar.