sexta-feira, 23 de maio de 2014

Escrever de verdade

Eu observava aquela folha cheia com desgosto de mim mesma. A primeira frase já estava errada. “Racismo é...”. Impessoal, em um assunto tão relevante. Um texto cheio de estatísticas e palavras elaboradas que pareciam parágrafo decorado do Wikipedia. Meu maior medo se tornara realidade na minha frente: um texto sem alma. Eu continuava a escrever, na esperança de que algo ali se tornasse relevante. Logo eu tinha vinte linhas de absolutamente nada. Nada naquele texto revelava qualquer traço de personalidade. Não era um texto errado, decerto era consideravelmente informativo, mas não tinha nada de especial. Era o tipo de texto que qualquer um esqueceria cinco minutos após ler, e eu provavelmente teria esquecido também, se não tivesse me incomodado tanto.
Tenho medo de não conseguir mais escrever. Digo, escrever de verdade. Do fundo do coração, ou da alma, ou de onde quer que as coisas profundas fiquem. Acho que todo mundo tem aquela mania, aquele transtorno obsessivo. Escrever é a minha sanidade. Eu não sei como diabos escrever um desabafo sobre um texto maior do que o texto em si no meio da aula de Química pode me ajudar a não enlouquecer, mas é assim que as coisas são. Acho que coloco pressão demais em mim mesma quando escrevo, então, quando o texto se revela um grande pedaço de merda, isso me atinge mais do que deveria. Eu queria escrever sobre um amor épico, do tipo que as pessoas passam a vida sonhando ter, mas nunca vivi um amor desse tipo, ou de qualquer tipo que valha a pena, na verdade. Portanto, não escrevo, pois acabaria sendo o tipo de texto saído da sua bunda, e ninguém gosta do tipo de texto saído da sua bunda. De qualquer forma, não é isso que quero atingir aqui.
É claro que não ajudou em nada quando o professor leu o texto e disse, com um sorriso sincero:
— Ficou ótimo, Gaby!

“Se você está perdendo sua alma e sabe disso, então você ainda tem uma alma a perder” — Charles Bukowski

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