As palavras de Sam depois de nossa conversa sobre o piano ainda retumbavam em minha cabeça.
"Droga, Joshua", ela suspirara. "Eu... Sei lá. Sinto como se estivesse confundindo você. Só não quero que você pense que não sou quem pareço ser."
"Não estou entendendo", admiti.
"Você nunca me entende. Essa é a graça", ela sorriu. "Eu ajo como se eu não tivesse medo de nada nem de ninguém, mas você sabe que há coisas que me assustam. E são coisas tão patéticas, como gansos e freios de bicicleta..."
Eu descobrira no desafio de confiança que Sam tinha medo de freios de bicicleta. Sempre achava que eles não parariam a tempo, o que me rendeu um timing imperfeito da minha navegadora.
"... Só não quero que pense que sou duas caras ou algo do gênero. É complicado, só isso."
"Você é uma rebelde que toca piano. Posso viver com isso. Você não deveria ter que esconder isso das outras pessoas. Seria um ato de rebeldia e tanto se você tocasse em frente ao país todo, hein?"
Ela sorrira na ocasião. Um sorriso sem dentes, como os que sempre lançava a mim, mas ainda assim um sorriso.
"Suponho que sim."
— Sam. Quer mesmo que eu acredite que Tiffany escreveu aquela música? — encarei-a enquanto nos encaminhávamos ao auditório para o desafio final.
— Sim, porque é verdade.
— Samantha, Tiffany nem sabe o que a palavra "inhabitant" significa.
— Você e a Brianna mereceram vencer aquele desafio — Sam comentou. — Foram muito bem.
Um elogio de Sam era o mesmo que uma aprovação divina.
—... Você teve sorte de poder fazer par com alguém que você gosta. Quero dizer, você até tem um apelido para ela e tal... — ela afastou uma mecha do cabelo dos olhos. — Bree.
Sorri.
— E eu chamo você de Sam. Também não é um apelido?
— Não é a mesma coisa, Joshua.
— Afinal, por que você me chama de Joshua? No começo, achei que fosse só para implicar comigo.
— No começo, eu também — ela deu um meio sorriso.
— Mas não é só isso, é?
Ela deu de ombros e foi falar algo com a Barbie. Quando chegamos ao auditório, ficamos esperando por Phillip. Foi quando percebi algo.
— Cadê a Sam? — perguntei a Luke, olhando em volta.
— Sei lá, cara.
Levantei-me e fui procurá-la. Eu estava caminhando por perto dos dormitórios quando ouvi aquela voz masculina levemente conhecida:
— Qual é, Samantha. Você fica se fazendo de difícil, mas eu vejo como me olha.
— Com nojo? Como se você fosse um vendido, artificial e supérfluo?
— Diga que não sente nada por mim, e eu deixo você ir.
— Se você gosta das suas mãos, tire-as de mim agora! É uma ordem!
Corri até a lateral dos dormitórios, onde encontrei Sam pressionada contra a parede por Phillip Fadaye, que tentava beijá-la. Ela o xingava e o afastava, mas não era forte o bastante.
Eu era.
Puxei-o pela parte de trás da camisa e o arremessei na outra parede.
Em um reflexo, levei meu punho até a cara dele. A sensação de socá-lo foi melhor do que eu teria imaginado.
— Isso foi por tentar beijá-la? — ele perguntou, limpando o pouco de sangue que saía do lábio.
— Não. Isso foi por chamá-la de Samantha. Só eu posso fazer isso. Esse aqui — dei outro soco nele. — Foi por tentar beijá-la, seu merda.
Arremessei-o na outra parede e fitei Sam, que parecia se divertir com o fato de eu estar mais irritado do que ela.
— Vamos — chamou ela, e nos afastamos.
Quando atingimos alguma distância, ela me lançou um sorriso dissimuladamente satisfeito.
— Você o jogou na parede! E depois bateu nele! E depois bateu de novo! E depois o jogou na parede! Eu ia colocá-lo no meu caderninho, mas você concretizou a vingança por mim!
Sorri.
— Você não parece muito irritada quanto a isso.
— Só estou feliz por você estar andando muito comigo. — ela beijou minha bochecha.
Tentei esconder minha expressão óbvia de surpresa.
— Tem razão, é tudo sua culpa.
— Meu heroi — Eu ri com o tom debochado com o qual ela disse isso.
Coloquei o braço em torno dos ombros dela numa tentativa de enforcá-la, mas ela me deu uma cotovelada no estômago.
— Eu poderia ter lidado com a situação — ela me encarou. Depois sorriu. — Mesmo assim, que bom que você apareceu.
— O maldito movimento feminista não te deixa dizer apenas "Obrigada, Joshua"?
Ela riu e se afastou.
Sentei-me ao lado dela no auditório. Phillip apareceu depois de algum tempo, passando gelo na parte do lábio onde eu o acertara.
— Bamos coezar — disse ele, sem conseguir falar direito. — A brimera é... Brianna!
Brianna se encaminhou ao palco. Ela havia me pedido para tocar para ela, então comecei a dedilhar o violão.
— I don't really know you... But I bet you are nice. People are people, and they try to make up our minds. They tell me you're mean, but I think everyone deserves their chance... — cantarolou Brianna, e foi para o refrão. — Everyone has a story. Everyone has gone through something that has changed them. I wanna hear your story. I'm sure your blue eyes are not as cold as they say...
Eu sempre me impressionava com o quanto Brianna sempre pensava o melhor de todo mundo. Até mesmo de Tiffany. Era uma letra tão bonita dedicada a uma pessoa tão terrível.
Acho que o excesso de bondade se torna ingenuidade às vezes.
Ela foi muito aplaudida.
— Diffany. Sua vez.
Tiffany se levantou, sorrindo, e foi até o palco.
— Bem — começou ela. — A minha dedicatória é para alguém que eu gosto e admiro muito. Mas... eu não sabia como colocar em palavras o quão incrível essa pessoa é, e descobri que uma colega minha sabia exatamente.
— Dudo bem — disse Phillip. — Mas a clega terá de brovar que tais palavras são berdaderas, caso contrário, nada de ponto.
— Concordo plenamente.
— Josh — Cory apareceu ao meu lado. — Pode vir comigo um instante?
— O que é? Eu vou junto — decidiu Sam.
Cory suspirou.
— É, pode ser melhor que você venha também.
Quando tomamos alguma distância, ele me encarou.
— Você acertou um dos rostos mais rentáveis da mídia atual.
— Foi.
— Por que faria isso?
— Não sei.
Sam bufou.
— Ele estava me protegendo.
Cory ergueu uma sobrancelha.
— Ah, é?
— É, sim. Aquele porco que vocês contrataram não sabe ouvir 'não' de uma garota.
O apresentador arregalou os olhos.
— Phillip tentou...?
Ela fez que sim.
— Certo. Obrigado pela colaboração. Podem voltar ao auditório.
Fizemos isso. Mas, quando chegamos, Sam congelou ao ouvir o que Tiffany estava dizendo e balançou a mão no ar até encontrar a minha, e então a esmagou.
— Deeear diary... — cantava Tiffany em sua voz aguda e chata. Comecei a acompanhar no violão.
"It's getting harder not to smile.
He acts stupid and does not care about it
I think he's just patiently waiting for all my walls
To fall down
And I think they are.
Dear diary,
I'm still wearing his coat
It's warm and I hate it
As much as I hate that damn uptown boy.
Dear diary,
He's actually kinda smart
Or just super observant
He always knows what is in my eyes
And I don't know how, but he gets
Everything I feel
Even when he doesn't understand
What I say for real
And since I started to talk
I love that his name is..."
— JOSHUA! — Sam berrou comigo e eu parei de tocar.
Silêncio mortal.
— Será que minha colega, Sam, quer falar algo sobre isso? — Tiffany abriu um sorriso satisfeito.
Sam caminhou até o palco, me arrastando junto pelo pulso. Não entendi por que, mas fui.
— Se vcê confssar — disse Phillip. — Su equipe pod gãrrar 30 pontos, o desapio, e não ter ninguém da equipe eliminado.
Sam suspirou. Eu podia ver que ela sentia que não tinha escolha.
— Certo. Essa megera loira roubou meu diário. — Silêncio. — É, eu admito que tenha escrito isso. Pá, babado forte — zombou ela. Se não zombasse, não seria Sam.
Depois se virou para mim — para mim, especificamente, e segurou minha mão, esmagando-a novamente. Não reclamei.
— Acho que te devo uma explicação, não é?
Assenti lentamente.
— Certo. Lá vai.
Sam me fitou por um longo minuto com aqueles olhos cinzentos tempestuosos. Depois apenas se inclinou e me beijou nos lábios.
Por um momento, fiquei tão atônito que não reagi, mas depois fechei os olhos e a beijei de volta. Se um abraço de Sam Price já era surreal, aquilo era o quê?
Quando nos separamos, ela ficou olhando para mim. Não desviou os olhos para os outros competidores nem uma vez. Acho que não queria ver a reação deles, então preferiu assistir à minha.
Ela também parecia surpresa, na verdade. Não reconheci sua expressão, mas com certeza havia um pouco de "o-que-diabos-eu-acabei-de-fazer?" nela.
Minha expressão era tão ridícula que a fez sorrir. Uma mistura de embasbacamento, confusão, surpresa e incerteza quanto a o que dizer agora.
— Eu estaba sperando apenaz uma confssão, mas isso serve também — Phillip deu de ombros. — Josh, sua vez.
Sentei-me no banquinho com o violão e Sam desceu para a plateia.
— Uou. Essa música parece tão errada agora. Ou tão certa. Não sei. Chamo essa de "Daydreamer" — dei de ombros e comecei a tocar.
"Daydreamer
You're lost in outer space
Am I the one to blame?
Let me save
You.
Daydreamer
You know who you are
Queen of sarcasm
The hero for the lost cause
A war of head versus heart...
Daydreamer
You've built your walls
I can't come across
Wish I were but I'm not
More than a stupid lacrosse star..."
— But I have a guitar... — essa última parte fez Sam sorrir levemente. — First I'm a nice guy. Then I'm kinda smart. You should stop calling me Joshua. Or I'll start to think I have your heart.
Sam ficou realmente irritada quando Phillip anunciou Brianna como vencedora do desafio. Algo me dizia que, se eu já não tivesse arrebentado a cara dele, Sam já teria feito algo muito pior, como... Sei lá. Mergulhar o rosto dele em alguma coisa nuclear e radioativa que a derreteria totalmente.
Mas ela ainda não falara direito comigo. Phillip nos dera o resto da tarde livre antes da eliminação de um Quati à noite.
Corri até Sam, que caminhava até o dormitório.
— Sam! Sabe que vamos ter que falar sobre isso, não sabe?
Ela continuou andando, fingindo que eu não havia dito nada.
— Acho que vou ficar lendo hoje... — comentou.
— Samantha.
— Eu sei que você não é o maior fã de livros, mas eu gosto deles.
— E eu sei que você não é a maior fã de... mim, mas você me beijou!
— Obrigada pela informação extremamente útil, Capitão Óbvio.
— Por nada, Tenente Sarcasmo.
A resposta à provocação dela a fez sorrir, mas ela fez de tudo para que eu não percebesse.
Percebi.
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