Sam chegou ao quarto imaginando que estaríamos todas dormindo, mas as meninas não sossegariam até fazer todas as perguntas possíveis a ela.
Eu particularmente não ligava muito, mas não conseguia dormir com toda aquela baderna.
— Essa é a jaqueta do Josh? — Maddie ergueu uma sobrancelha.
Sam olhou para baixo e xingou baixinho, como se percebesse pela primeira vez que ainda estava com ela.
— Ele derrubou os cobertores numa poça d'água — ela revirou os olhos.
— Guardou um pedaço de pizza para mim? — perguntou Barbie, saindo do banheiro.
— Não... Josh comeu tudo, mal sobrou pizza pra mim — Sam suspirou.
— Espere, essa é a jaqueta dele?
— Meu Deeeeus! — a punk bufou e apagou a luz do quarto. — Dormir. Todo mundo.
Mas quando ela chegou em sua cama, soltou um berro.
— QUEM FOI A VADIA QUE PEGOU O MEU CADERNO?! — ela gritou, semicerrando os olhos e acendendo a luz. — Agora. Eu sei que foi uma de vocês. Quem foi?!
Ficamos em silêncios, olhando atordoadas para ela.
— Quando eu acordar, quero o caderno em cima do meu baú. Ou vocês vão se ver comigo. E não. Vai ser. Bonito.
— Achei que ela fosse ficar menos dramática depois do encontro — sussurrou Maddie.
Uma escova de cabelo voou nela no mesmo instante. Não vou dizer quem jogou, mas digamos que o nome da garota começa com S de sangue e termina com M de morte.
No dia seguinte, o caderno não estava em cima do baú de Sam. O almoço foi bem tranquilo.
— Eu sei que foi você! Devolva. Meu. Caderno — Sam cerrou os dentes, ameaçando Tiffany com um talher.
— Sam... Você sabe que isso é uma colher, não sabe? — Josh comentou, receoso.
A garota olhou para a colher que tinha em mãos, apontada para Tiffany. Apontou-a para Josh e disse:
— Quer testar?
Josh podia até conseguir ter alguma influência no temperamento explosivo de Sam, mas não tanto assim. Então apenas ficou quieto enquanto Tiffany negava ter roubado o caderno.
Sentei-me na varanda do chalé para ler um livro de Sam que eu havia pedido emprestado. Havia algumas anotações ocasionais nas partes que ela mais gostara, e eu gostava de lê-las.
"Quando você sai das vista das pessoas você vê realmente o que importa na vida e o que te faz bem"
Embaixo ela escreveu, em uma letra cursiva caprichada:
Só não dá para fugir de si mesmo
Uma parte em especial me intrigou. A personagem falava sobre ajuda, e Sam escreveu embaixo "Ninguém pode ajudar ninguém".
Intrigou-me a ponto de que perguntei a ela quando a vi saindo do chalé. Ela sentou-se ao meu lado e começou a falar devagar, como se achasse que eu não tinha Q.I o suficiente para compreender as teorias dela.
— Ninguém pode ajudar ninguém, pois não há patamar superior. Estamos todos coexistindo, em diferentes situações, mas da mesma forma. A pessoa pode te oferecer a ilusão na qual ela acredita, e você pode aceitar ou não. Mas não existe "ajudar", pois somos todos iguais. Estamos todos aqui nas mesmas condições. Viver. Se ferrar. Morrer. É isso. Como se tira alguém do inferno quando você próprio está preso a ele?
Não costumava julgar as pessoas, mas fiquei surpresa ao perceber que a arrogância de Sam tinha um leve fundamento.
Ela não fingia que todos eram mentalmente inferiores a ela. Ela realmente pensava tal coisa, e talvez alguns até fossem.
— É um jeito solitário de se pensar — comentei, relutante.
— É o jeito racional de se pensar. Só que as pessoas evitam o racional, então se prendem a esperanças. É como a vida após a morte. Sabe por que as pessoas acreditam que algo acontece com elas depois de morrer? — ela me encarou. — Porque não suportam a outra alternativa.
—...
— Não sei você, mas não vou ficar esperando a possível próxima vida — Sam se levantou. — Vou fazer esta aqui valer a pena. Vou deixar um legado que viva para sempre.
— E o resto das pessoas achando que ser feliz basta — Josh se aproximou, sorrindo levemente.
Sam o fitou.
— Como você pode ser feliz sem um propósito?
Josh desviou o olhar, focando em mim.
— Ela está te assustando? Porque ela faz isso às vezes, mas te garanto que ela não vai te apunhalar enquanto você dorme... Eu acho.
— Não! Perguntei a ela sobre umas anotações de um livro e ela começou uma teoria existencialista muito inteligente, na verdade.
Josh ergueu uma sobrancelha.
— Ah, é? E depois diz que lacrosse é para idiotas — ele sorriu, olhando para Sam. — Quero dizer, a jaqueta está claramente aumentando seu Q.I.
Sam abraçou a jaqueta de Josh, que ainda estava vestindo, de forma defensiva.
— Talvez você devesse tomá-la de volta, então. A falta dela está claramente queimando seus neurônios.
— Meu Deus, você acaba de assumir que eu tenho neurônios! — ele fingiu estar impressionado, e disse a próxima sentença olhando para mim: — Isso é tipo uma declaração de amor no Mundo Mágico da Samantha, sabia?
Eu não sabia, mas assenti.
Cory nos deu um dia de folga. Aprendêramos a odiar qualquer coisa levemente legal que ele fazia, pois era sempre seguida de tortura iminente.
Eu só não esperava que a tortura se chamasse Phillip Fadaye.
Phillip não seria uma tortura, de modo nenhum. Foi o que pensei quando o vi no dia seguinte.
Phillip Fadaye era um cantor pop que estava fazendo bastante sucesso, então eu não fazia ideia de por que ele decidira participar daquele programa de segunda bobo onde estávamos.
Mas lá estava. Phillip era... Bem... Lindo. "Lindo" seria a palavra certa. Cabelos louros cacheados, olhos azuis, um sorriso bonito e uma voz hipnotizante.
— Acho que todos vocês conhecem Phillip Fadaye — disse Cory, sorrindo um pouco ao nos apresentar. Todas as garotas assentiram e soltaram suspiros, animadas. Exceto Sam. Sam se juntou ao grupo dos garotos, que bufavam e resmungavam algo que soava como "viado". Nenhuma surpresa até ali.
— Obrigado — Phillip sorriu levemente. — É um prazer estar aqui. Gosto muito do programa.
A ideia fez Sam — que achava os espectadores do programa mais estúpidos do que o próprio show — bufar novamente e revirar os olhos.
Para a surpresa de todos, os olhos de Phillip se acenderam. Ele abriu um grande sorriso e caminhou até ela.
— E você é...?
Foi levemente divertido assistir à expressão de ultraje no rosto de Tiffany.
— Achei que assistisse ao programa — rebateu Sam, olhando para a própria unha em um gesto de desafio.
— Assisto. Só pensei que poderíamos nos apresentar frente a frente.
Ela finalmente olhou para ele.
— Bem, pensou errado. Cory — ela encarou o apresentador. —, podemos continuar essa droga para que eu possa ganhar um milhão e uma ficha limpa logo? Obrigada.
Fiquei um pouco incomodada por Sam ser tão rude com alguém que estava sendo tão gentil com ela, mas não estava muito surpresa. Josh parecia estar se divertindo.
— Hoje — Phillip se virou para todos nós, sorrindo. — vocês serão estrelas do rock.
O único que parecia achar aquilo interessante era Luke — desde que ele pudesse destruir quartos de hotel e tal.
— Quem aqui toca algum instrumento? — perguntou Phillip. Apenas Josh e Maddie levantaram a mão. — Ótimo... Bem... Hã... Quem aqui canta?
Tiffany ergueu ambas as mãos rapidamente e as balançou, dizendo "Eu!", "Eu!".
— Trouxemos violões, pianos, baterias, guitarras elétricas e um violino. Josh e Maddie terão preferência na escolha de instrumentos, já que tocam.
— Violão! — berrou Josh no mesmo instante.
— Violino! — berrou Maddie por cima.
— Os outros... Espere, cadê a Samantha? — Phillip olhou em volta.
Fizemos o mesmo. Ela não estava mais ali.
— Certo, hm... Façam duplas. Um vai tocar e outro vai cantar. Vocês têm três horas para ensaiar.
Fiquei com Josh. Não achava que minha voz era ruim.
— Vou só pegar meu violão... — disse ele, mas parou de falar no mesmo instante. Havia percebido a mesma coisa que eu. — Isso é... música?
Corremos em direção ao som. Olhamos pela janela da sala de música, que estava vazia, exceto por uma única pessoa tocando piano.
Sam.
— Você mentiu! — berrou Josh, escancarando a porta da sala. Sam arregalou os olhos e parou de tocar. — Samantha Price, você toca piano. Por que diabos você toca piano?
Ela pegou a partitura que estava tocando, agindo como se tivéssemos invadido o banheiro enquanto ela tomava banho.
— Não é da conta de vocês!
— Você toca muito bem, Sam. Sério. Precisa dizer ao Cory.
— Não preciso fazer nada! Preciso que vocês calem a boca, isso é tudo.
Josh semicerrou os olhos, aproximando-se dela como eu nunca havia visto ninguém fazer. Sem nenhum medo. Perto o suficiente para um chute na virilha. Imaginei se ela conseguiria sentir o hálito dele.
— Ou você conta ao Cory. Ou eu conto.
— Você não faria isso.
— Como sabe?
— Porque conheço você, Joshua.
— Exatamente. Eu sou bem idiota, sabe? Não penso muito antes de fazer coisas estúpidas.
— Joshua. Não posso fazer isso — ela o encarou, séria. — Entendeu? Não posso. Preciso que entenda isso.
— Por que não está dizendo isso a ela também? — ele apontou para mim.
— Ah, ela não vai dizer nada. Tem medo de acordar sem cabelo. É com você que estou preocupada.
* * *
Não sei como, mas Josh a convenceu. Não escutei a conversa, mas em diversos pontos achei que Sam fosse chutar as partes baixas de Josh. Mas ela não o fez, e ele não recuou — o que achei surpreendemente corajoso (ou insano), mas Sam não parecia achar grande coisa.
Porém, estávamos atrasados e só havia uma pessoa sem par para Sam.
— NEM PENSAR! Prefiro ter todos os meus membros arrancados de mim, ou pior! Ter todos os meus Louboutin arrancados de mim! — gritou Tiffany, mostrando sua indignação.
Barbie sussurrou para mim que Louboutin — Christian Louboutin — era uma grife de sapatos. Agradeci baixinho pela informação.
Sam mandou-a calar a boca e a arrastou até a sala de música. Todos os outros instrumentos podiam ser removidos de lá com mais facilidade do que o piano, então ela "pediu" para usar a sala.
Então, sim, ela fez com que Luke tirasse a bateria lá de dentro, porque ela era Sam Price e Luke era um cachorrinho domesticado.
Sentei ao lado de Josh em um banco de madeira em frente ao mar. Ambos gostávamos de observar as ondas e o ar livre, então por que não?
Cory havia estabelecido algumas regras quanto à competição. Teria de ser uma música de autoria própria da dupla, e no mínimo uma pessoa por dupla tinha de cantar.
— Realmente não me sinto confortável cantando sozinha — comentei com Josh, um pouco relutante pela frescura.
— Tudo bem, eu canto com você.
Fiquei surpresa por ele ter aceitado tão bem.
— Sério?
— É, vamos fazer isso. Por que não, né?
Eu podia citar pelo menos vinte e sete "por que não"s, mas fiquei quieta.
— Quanto à música... — ele torceu o nariz. — Sou um péssimo escritor. Sou mesmo.
— Posso pensar em alguma coisa. Toque.
— Tocar o quê?
— Não sei, invente algo. Vou criar uma letra.
— Tipo, de improviso? Você é algum tipo de rapper, ou...?
— Deus, não. Eu ouço Jason Mraz, não sei nada sobre rap. Apenas toque.
Josh começou a tocar uma melodia simples, um pouco animada.
— Sobre o que deveríamos cantar? — perguntei, ainda hesitando.
— Estou só tocando, Jensen. O resto é com você.
— Valeu pelo apoio. Só... Hm...
— O quê?
— Não estou exatamente confortável com baladas românticas, tudo bem?
Josh sorriu, parecendo aliviado.
— Deus, muito obrigado. Isso seria constrangedor.
— Nem me diga!
— Ainda estou tocando, Brianna...
Suspirei e comecei a cantar o que veio na cabeça.
— There will come a time / When I'll be on the top / No more lies / No one is gonna shut me up.
O refrão foi um pouco mais fácil.
— I'm gonna sing out loud for those who doubted me / I'm gonna throw it all on their faces / There will come the day they'll wash my car / Cause man... I'm gonna win this game.
O comentário de Josh ao fim da música foi:
— Sua... Sua rapper!
Eu ri.
— Como eu faço para lembrar do que cantei agora?
Ele mostrou o gravador que havia trazido sem que eu soubesse.
— Seu... Droga, Josh! — enrubesci, o que era idiota, pois eu era gravada o tempo inteiro pelas câmeras daquele programa.
— Por nada! Agora me ensine essa droga de letra.
— Bem, preciso aprendê-la primeiro.
— Temos uma hora e meia para isso. Preciso lembrar o que eu toquei também.
— Bom saber que está tudo nos conformes.