quarta-feira, 24 de julho de 2013

Adolescentes Selvagens; Capítulo 38: Sam


Ouvir a voz da Lily foi o melhor presente que eu poderia ter ganhado. Cory me prometera que ninguém estava filmando aquela conversa e eu meio que acreditava nele.
— Isso está sendo televisionado? — perguntei à Lily de repente.
— Não — disse ela com sua vozinha fina. — Estão focando em alguma briga da Barbie com a Tiffany. Mamãe finalmente assinou o Pay Per View do programa, então agora posso assistir você o tempo inteiro! Sério, é muito divertido! Aí também está sendo divertido?
Sorri. Olhei para Josh de relance como se tivéssemos uma piada interna, mesmo que ele não fizesse ideia do que eu estava falando à minha irmã.
— Não está tão ruim quanto eu pensei.
— As pessoas são tão legais quanto parecem na TV? A Tiffany odeia mesmo você? Você fica com ciúmes da Tiffany igual a Tiffany fica com ciúmes de você por causa do Josh?
Tomei um minuto para respirar. Lily tinha a mania de fazer perguntas demais de uma vez.
— Algumas pessoas são suportáveis. Sim, a Tiffany me odeia. Não, eu não tenho ciúmes dela.
— Ahh... E você e o Josh são tipo BFFs agora?
— Não sei, pera aí, deixa eu perguntar... Ei, Joshua! — berrei. Ele se virou, surpreso. — A Lily está perguntando se somos BFFs.
— Nem pensar! Nós somos BFFEs! Best Friends Forever and Ever!
Sorri.
— Acabo de saber que somos BFFEs — falei para Lily.
— É, eu ouvi... Ele tá aí do seu lado?
— É, mas ele não consegue ouvir o que a gente fala.
— O idiota do Trevor está berrando aqui do meu lado quais são seus planos para hoje à noite e ele perguntou se você já "pegou aquele delinquente que também está no programa".
— Diz para o Trevor... Bom, primeiro fala para ele "VTNC".
— O que isso significa?
— "Vem tomar Nescau comigo" — menti. — Mas fala a sigla.
Josh riu.
— Ei! Pare de espiar a conversa dos outros, Evans! — censurei e ele se afastou mais. — Lily? Ah, e diz para ele que o Luke é um idiota e que eu prefiro morrer. E meus planos para hoje à noite... — encarei Josh e falei um pouco mais alto para que ele ouvisse. — Diz para o Trevor que meus planos para hoje à noite são pizza e filme com um atleta mauricinho da cidade grande com a ficha limpa.
— VOCÊ TEM UM ENCONTRO COM O JOSH?!
— Não... Não é um encontro. Nós ganhamos o jantar no desafio, Lil. E pizza e filme não é exatamente o programa mais romântico do universo.
— Eu acho muito fofo!
— Lily! Somos... amigos, acho. Ele é... menos idiota do que o resto das pessoas aqui — confessei. Uou. Eu realmente dissera aquilo? Não tinha como ser verdade. Josh era tudo o que eu odiava. Mauricinho, popular, atleta, surfista, tinha aquela pose idiota de galã...
Não tinha como ser verdade. Mas era.
— Eu não entendo. Você é bonita. Ele é bonito. E você faz ele sorrir. Você não vê o jeito que ele olha para você, mas eu vejo.
— Lil. A TV distorce as coisas.
— Eu sei. Bem... Vou deixar você voltar ao seu encontro. Depois me conta como foi.
— Não é um encontro, Lily! Droga, não repita isso por aí! Ligo de novo semana que vem.
— Ok... Ei, Sam.
— O quê?
— Eu amo você. Estou com saudade.
Engoli em seco. Sentia-me idiota por desmontar tão facilmente, ainda mais com Josh assistindo.
— Também amo você, Lil. Muito. Aguenta firme que daqui a algumas semanas eu estou em casa, ok?
— Ok. Olho no prêmio, hein?
Sorri.
— Pode deixar. Tchau, Lil. Até semana que vem.
E desliguei. Assim foi minha tão esperada conversa com a Lily. E valeu totalmente a pena. Caminhei até Josh que, sem fazer nenhuma pergunta ou comentar meu estado vulnerável, sorriu e disse:
— Está com fome?
— Estou. Mas estou suada também. Vou tomar um banho e te encontro na fogueira, ok?
A verdade é que eu só queria um tempo para me reconstruir depois da ligação. Lily era a única pessoa no universo que tinha o poder de derrubar todas as barreiras que eu construía ao redor de mim mesma, e eu demorava alguns minutos para reconstrui-las. Não que eu conseguisse fazê-lo de imediato. Era como se eu fosse um livro que só Lily pudesse abrir, mas que mesmo depois de fechado, ela ainda mantivesse um marcador de página dentro dele.
Eu percebera recentemente que Josh podia ler minhas expressões bem mais do que deixava transparecer, então ele sabia que aquela era uma desculpa idiota. Mas por algum motivo, ele não comentou nada. Assim como não comentou nada sobre minhas tergiversações o dia todo. Eu meio que me sentia grata por ele não exigir explicações.
— Claro. Vinte e cinco minutos?
— Ok — dei de ombros e ele hesitou um pouco antes de se dirigir à Cabana Leste.
Cheguei à cabana das meninas tentando não chamar atenção. Mas é claro que não deu certo.
— Olha quem chegou — Barbie sorriu. — A vencedora.
Claro que ainda havia um pouco de ressentimento em sua voz, mas fingi não perceber.
— Sou a primeira no banho — estipulei, sem pedir confirmação. — A pizza me espera.
— E o Josh também — comentou Maddie.
— É, bem... Nenhum prêmio é perfeito — dei de ombros. — Mas estou realmente a fim daquela pizza.
A resposta das meninas foi jogar vários travesseiros em mim. Ri um pouco.
— Pizza? Quem liga para a pizza? — Barbie sorriu para mim. — Quero um Josh à milanesa para mim, por favor.
Ri um pouco mais e fui para o banho. Depois simplesmente peguei uma roupa qualquer: uma camiseta vermelha, jeans e coturnos. Passei rímel e voilà.
 — Vai mesmo assim? — Barbie ergueu uma sobrancelha para mim, sentando em frente a mim na minha cama.
— É só uma pizza, poxa.
— E um filme — disse uma voz na janela. Josh, tampando os olhos com uma das mãos. — Olá, meninas. Estão todas vestidas?
— Sim. Sabe, essa seria uma atitude realmente admirável, se você não estivesse espiando entre os dedos.
Josh sorriu e abriu o pequeno vidro da janela.
— Então — ele me fitou. — Nós temos... Duro de Matar 4.0...
— Não.
— Os Mercenários...
— Não.
— Duro de Matar: Um Dia B...
— Joshua, eu não vou assistir um desses filmes broxantes de ação, desista.
Ele riu um pouco e deu de ombros como se já esperasse por isso.
— Temos... Cisne Negro.
— Gay demais.
— As Vantagens de Ser Invisível...
— EU AMO ESSE FILME!
Josh me encarou, surpreso.
— Sério? Eu nunca assisti. Mas aqui está classificado como "drama"...
— Não é drama! É muito mais do que isso, em tantas formas diferentes, e...
— Acho que escolhemos o filme, então?
Assenti.
— Ok. Vejo você em cinco minutos. Ah, e você acha que eu deveria providenciar dois cobertores ou apenas um já bast...
Encarei-o e fechei a janela na cara dele.
— Tchauzinho, Joshua — acenei e ele ergueu uma sobrancelha antes de desaparecer. Fitei Barbie. — Onde estávamos?
Foi quando percebi que o chalé todo me fitava como se tivesse visto um fantasma.
— O que foi? — franzi o cenho.
— Estão surpresas com o jeito como conversou com ele — Brianna esclareceu, levantando os olhos de seu livro.
— Eu trato Joshua como trato todo mundo, ué — dei de ombros. — Acharam o que, que era tudo "Awn, olá Joshua", "Awn, obrigadinha Joshua, você é tãão forte!"? Nah.
— Viu como ele ficou surpreso? — Barbie fitou Brianna. — Ela provavelmente foi a primeira garota no universo a fechar uma janela na cara dele.
— Ele faz de propósito — defendi. — Bem, se me dão licença, eu vou indo.
— Mas é sério que você vai com essa roupa?
— O que tem de errado com a minha roupa? — suspirei. — Esperava o quê? Um vestido de bolo, babyliss no cabelo e um bottom escrito "SRA. EVANS"? — ergui uma sobrancelha. Fora uma pergunta retórica, então apenas saí da cabana sem esperar resposta.
Encontrei Joshua sentado no chão, encostado num dos troncos cortados de árvore perto da fogueira apagada. Havia apenas a luz fraca de um poste e da lanterna que ele havia trazido, mas eu conseguia vê-lo. Vestia roupas normais — uma camisa branca, jeans, tênis e a jaqueta do time de lacrosse que eu havia dito que odiava. Eu duvidava que fosse coincidência. Seus olhos verdes chamavam mais atenção por causa da luz fraca, e não fizeram nenhum comentário sobre a minha roupa. Assim como eu não estava esperando um terno, ele não estava esperando nada diferente de jeans e coturnos.
Aproximei-me e me sentei ao seu lado. Josh pegou a caixa de pizza e a colocou entre nós dois. Ele já havia comido dois pedaços. Revirei os olhos.
Normalmente, ao ver um filme com alguém que eu mal conhecia, eu não sentaria no chão, não comeria pizza com as mãos e não ficaria dando pitacos nos filmes. Mas as coisas com Josh eram bem mais simples. Ele não dava a mínima para formalidades, e eu também não. Quando comentei isso com ele, ele sorriu e disse:
— O caso é que nós somos BFFEs, Samantha. Tudo é diferente quando se está com o seu BFFE.
Percebi que o lado direito de minha boca estava inclinado para cima.
— Põe logo essa droga de filme antes que você coma toda a pizza.
Cory havia nos arrumado um projetor, já que não tínhamos TV. Logo o filme estava começando.
Frequentemente eu sussurrava:
— Essa parte é muito boa.
— Você vem falando isso o filme todo — Josh me encarou.
— Eu disse que amo esse filme, poxa.
Quando fui pegar mais um pedaço de pizza, me dei conta de que havia acabado.
— Joshua! Você comeu cinco pedaços de pizza?! — semicerrei os olhos.
— Foi? — comentou ele, distraído.
— Meu Deus, como você não engorda? — perguntei ressentida.
— Bons genes — ele deu de ombros.
— Agora cale a boca que eu amo essa parte.
Era uma de minhas partes favoritas do filme, quando eles estavam jogando Verdade ou Desafio e o Patrick perguntava para o Charlie como estava o namoro.
— Está tão ruim que eu frequentemente fico imaginando um de nós dois morrendo de câncer para que eu não tenha que terminar com ela — disse Charlie no filme.
Soltei um riso baixo e Josh riu também. Ele tirou a caixa de pizza e a jogou longe — provavelmente em um desafio a Cory, o que provavelmente queria dizer que minha rebeldia era contagiosa. Depois se aproximou para me dar a torta de maçã.
Cara, estava muito boa. Ele não pediu um pedaço e eu não ofereci, provavelmente como vingança por ele ter comido a pizza toda.
Foi quando chegou NAQUELA parte. A parte onde Charlie começa a ter flashbacks de sua tia de novo e tenta matar a si mesmo.
Eu havia me esquecido do porquê de eu não assistir aquele filme com pessoas perto.
Idiota, sussurrei para mim mesma. Não chore. Não chore. Não aqui. Não agora. Vai ficar tudo bem. Reconstrua as barreiras. Droga, por que é tão difícil?
— Está com frio? — Josh me fitou por um momento.
Demorei um momento para voltar à realidade.
— Não — respondi, mas acho que minha expressão disse outra coisa.
— Eu trouxe cobertores e... Ah, maravilha — ele revirou os olhos ao perceber que os cobertores haviam caído do tronco de árvore e agora estavam numa poça d'água. — Faz o seguinte: pega o meu casaco.
— Joshua, sério...
— Estou falando sério... — disse ele, tirando o casaco. — Nós atletas somos submetidos a todo tipo de tortura. Não sentimos frio, não engordamos... Quase não somos humanos, sabe.
— Como zumbis?
— Não, eu sou muito mais bonito que um zumbi.
Revirei os olhos, sorrindo um pouco.
— Eu acho zumbis muito fodas. Eles são lerdos, burros e não tem nenhum poder legal, mas mesmo assim matam todo mundo.
— É um argumento válido — Josh reconheceu. — Aqui, toma — ele se sentou ao meu lado e colocou a jaqueta nas minhas costas.
— Obrigada — lembrei de dizer.
Por mais que eu ainda odiasse a jaqueta e tudo o que ela representava, não podia negar que era muito confortável. Fiquei imaginando se ele percebera que o filme estava me afetando, ou se só tinha um timing muito bom.
— Fica bem em você — ele sorriu. — O vermelho dá mais cor ao seu rosto.
Abri um leve sorriso, ainda abraçada na jaqueta. Tinha um cheiro que reconheci: amaciante, algo amadeirado e mais alguma coisa que não identifiquei. Tinha cheiro de Josh.

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