Tenho de admitir que fiquei um pouco surpreso quando Sam me encarou, séria, ao sairmos do refeitório e disse:
— Temos que ganhar essa joça. TEMOS.
— Bem, se você faz tanta questão do jantar...
— Não, não é por causa do jantar — ela balançou a cabeça e me puxou pelo pulso até a Cabana Leste.
Sentei e a encarei, deixando claro que esperava alguma resposta.
— Eu... Bem... — ela olhou para baixo, fingindo estar interessada na própria unha. — Tem alguém para quem eu quero ligar. Significaria o mundo para mim se eu pudesse ouvir a voz dessa pessoa, mesmo que por um telefone estúpido.
Eu nunca entenderia esses momentos aleatórios onde Sam decidia ser vulnerável. Mas eu gostava deles.
Uma resposta para o que diabos ela estava falando veio para mim e eu enrubesci um pouco. Havia passado tanto tempo conversando com Sam nos últimos dias que a ideia não me ocorrera.
— Ah, se você quiser ligar para o seu namorado, certamente podemos dar um jeit...
— Namorado? — ela franziu o cenho para mim e sorriu ao perceber minha expressão vacilante. — Não, nada de namorado. Eu... Eu só quero ligar para a Lily.
Percebi que ela mexia em seu colar com os dois pingentes — o S e o L: S de Sam e L de Lily.
— Isso vai soar muito bobo — ela corou um pouco, desviando o olhar novamente. —, mas a Lily é minha irmã mais nova. BEM mais nova. Ela tem nove anos. Quer saber, você não entenderia.
Continuei fitando-a firme, sem relutar.
— Caso tenha se esquecido, eu também tenho um irmão sete anos mais novo — abri um sorriso gentil. — Explique para mim.
Sam pareceu pensar no assunto por um minuto, mas por fim cedeu.
— Certo... A Lily... Bem... — ela abriu um pequeno sorriso bobo. — Desde sempre, ela sempre esteve lá por mim. Eu sempre fui uma espécie de heroína para ela, sabe? Gostava disso. Acho que a ideia de ser um exemplo para alguém me induzia a fazer a coisa certa. Bem, não que eu esteja fazendo um trabalho muito bom com isso... — ela mordeu o lábio e eu quis dizer qualquer coisa no Universo para confortá-la, mas nada me veio na cabeça. — De qualquer forma, é bom saber que alguém lá fora ainda tem fé em você. Às vezes foi a única coisa que me impediu de pirar.
E ali estava ela de novo, sendo tudo o que eu nunca imaginaria que Sam Price era quando a conheci. Sendo tão fechada e tão vulnerável ao mesmo tempo. E, de novo, eu não fazia ideia do que dizer.
Não era uma história que ela costumasse contar, e eu sabia que ela me contara apenas porque queria ganhar o desafio, mas eu preferia acreditar que ela se sentia confortável contando-me aquelas coisas. Eu queria que ela se sentisse confortável. Certo, eu a conhecia há poucos dias, mas sabia de uma coisa: eu adorava ouvi-la contar suas histórias. Eram sempre tão mais interessantes que a minha vida idiota em Manhattan.
— Vamos ganhar, Sam — foi tudo o que me pareceu certo dizer.
— Promete?
Lembrei-me da primeira vez que ela me fizera prometer algo. Foi quando estávamos prestes a entrar no primeiro desafio e eu estava com o walkie-talkie que se comunicava com o dela. Ela me odiava na época. Agora acho que ela apenas me suportava, o que era um ótimo progresso. Inconscientemente, a cena voltou para a minha cabeça:
"Não se preocupe, pode me chamar para qualquer coisa."
"Promete?"
"Prometo."
E aquela foi a primeira vez que ela quase sorriu por minha causa. Bem, agora ela sabia que eu levava promessas bem a sério.
— Prometo.
Sam pareceu um pouco mais tranquila depois daquilo. No mesmo momento, percebemos que as outras duplas começavam a se encaminhar até a entrada da floresta, então calculamos que deveríamos fazer o mesmo. Como sempre, Sam saiu na frente e eu a acompanhei.
Chegamos todos mais ou menos ao mesmo tempo, então Cory começou a falar:
— O desafio de vocês é completar todo o percurso. Quem o fizer em menos tempo ganha. O primeiro a chegar pode ligar para uma pessoa especial uma vez por semana. Blá, blá, blá. Em cada parte do percurso, haverá um pequeno contratempo para testar o quanto você confia em seu parceiro. O primeiro é... — Cory tirou do bolso quatro elásticos.
Antes que eu percebesse, o pulso direito de Sam estava preso ao meu pulso esquerdo por um elástico.
—... Se o elástico arrebentar, vocês devem voltar para buscar outro. E... valendo!
Tiffany saiu correndo no mesmo instante e arrebentou o elástico. Barbie revirou os olhos.
A primeira parte do desafio era um percurso de obstáculos, onde tínhamos de pular, abaixar, desviar... Tudo em perfeita sincronia, senão o elástico arrebentaria.
— Acho que se déssemos as mãos ficaria mais fácil. O elástico só arrebentaria se as soltássemos — sugeriu Sam. Ela tinha tomado a frente nas decisões estratégicas, e eu não era idiota o suficiente para ser contra. Então apenas entrelacei os dedos da mão dela nos meus e começamos a correr.
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