Gwen, Jason, Lolla, Daniel e Abigail se encaminharam à sala de Louis Wolf na hora combinada no dia seguinte. Quando sentaram-se à mesa, o mais velho começou a falar:
— Acho que todos sabem por que estão aqui — Louis fez uma pausa. — A srta. Frey recebeu uma carta curiosa aparentemente vinda de sua irmã mais velha, Miranda.
— Sem querer soar pessimista — Lolla interrompeu. — Mas eu duvido que não seja uma armadilha.
— Mesmo que seja — Jason se pronunciou. — Depois do que aconteceu na Cerimônia e de todas as mudanças evidentes que a chegada da Frey trouxe, seria burrice não tentarmos descobrir mais sobre o assunto.
— Bem colocado — elogiou Louis. — Srta. Frey, gostaria de dizer algo?
Gwen, que estava aturdida demais para prestar atenção, demorou um momento para perceber que havia sido chamada.
— Eu preciso ver minha irmã, sr. Wolf — ela mordeu o lábio. — Depois de tudo o que aconteceu, se há qualquer chance de que eu possa conversar com ela, vê-la, ter certeza de que ela está bem... Preciso dessa chance.
— Compreendo. Entretanto, a senhorita deve compreender que é contra as regras e totalmente impulsivo permitir que um membro não-oficial saia sozinho em uma missão de tal risco.
— Ela não precisa ir sozinha — lembrou Jason. — Alguém experiente poderia ir com ela.
— Você se ofereceria? — Louis o encarou, e Jason soube que o que ele dizia nas entrelinhas: Você sabe o que isso implica?
Jason apenas fitou Louis por um longo momento sem dizer nada.
— Srta. Frey — disse Louis. — Gostaria de pedir a você e aos outros que se retirassem, com exceção do sr. Cooper. Quero ter uma palavra com ele.
— Na verdade — Jason interrompeu. — Eu gostaria que a srta. Aryan permanecesse na sala.
Louis pareceu considerar a ideia.
— Muito bem. Sr. Knowles, você, a srta. Frey e a srta. Martinez estão dispensados.
De má vontade, eles saíram pela porta.
— Certo — Louis foi o primeiro a falar. — Mesmo que vocês sejam extremamente astutos e acostumados, ainda são adolescentes. Falei com Callum e...
— Falou com Callum sobre a Frey? — Jason ergueu uma sobrancelha.
— Talvez devêssemos deixar claro a importância da Frey para tudo o que vem acontecendo —sugeriu Lolla.
Jason percebeu que ela poria todas as cartas na mesa. Não se opôs. Louis provavelmente já sabia de tudo, e até mais do que os dois adolescentes.
— Tudo começa pelo fato de Gwen Frey ser uma Pitonisa — disse Lolla, séria.
— Uma... O quê? — Jason se sentiu um pouco estúpido, mas as palavras voaram da boca dele.
— Pitonisa — começou Louis. — é o nome que os antigos gregos davam a todas as mulheres que tinham a profissão de adivinhas, porque o deus da adivinhação, Apolo, era cognominado de Pítio, quer por ter matado a serpente-dragão Píton, quer por ter estabelecido seu oráculo em Delfos, cidade primitivamente chamada Pito.
— Ou seja — concluiu Lolla. — Gwen é uma Vidente.
— E isso é um problema por que...?
— A Vidência é um dom esquecido — explicou Louis. — Não temos uma Pitonisa aqui desde... Bem, sendo sincero, desde a última Frey a integrar a Legião. Tornaram-se sinal de mau agouro, as Pitonisas. Tendem a mudar as coisas por onde passam.
"A última Frey a integrar a Legião". Jolene Frey, pensou Jason, lembrando-se da ficha.
— Pra pior?
— Se formos generalizar... Bem, sim.
— O que mais Callum disse? — quis saber Lolla.
— Eu disse a ele que vocês não eram mais crianças. Que eram legionários melhores do que a grande maioria.
— Mas isso não o convenceu — Jason adivinhou. — Teríamos de provar a ele.
— No que quer que esteja pensando, Jason... — ele parou de falar e encarou Lolla. — Se quiser saber alguma coisa, srta. Aryan, basta me perguntar e responderei com prazer. Não invada minha mente.
— Tarde demais — disse Lolla, sem demonstrar nenhum constrangimento. — Callum considera a ideia de que Gwen possa estar envolvida na armadilha. E com isso quero dizer, agindo contra a Corte.
— Frey, uma espiã? Isso é ridículo. — Jason revirou os olhos.
— Tenho conhecimento disso — disse Louis. — Entretanto, já que Callum não conhece nossa querida Frey, é sempre uma possibilidade. Estou de mãos atadas.
Eles ficaram em silêncio por um momento. Jason olhou para Lolla à procura de ajuda, mas ela não parecia ter nenhuma de suas ideias brilhantes para contornar as regras.
Foi então que Jason se lembrou do que a doutora Williams dissera. Para conseguir uma missão especial, ela precisaria de proteção oficial. Comprometimento.
A garota não deve perecer
E disso ele se assegurará
Concedendo proteção e segurança o fará
— Gwen não é um membro oficial, portanto não pode jurar — lembrou Jason. — Porém, eu posso.
— Pense no que está dizendo — pediu Louis.
— Já pensei. Há um jeito. Para conseguir uma missão oficial, ela precisaria de proteção oficial.
Um surto de entendimento passou pelos olhos de Lolla. Jason não queria ver o olhar horrorizado dela.
— Jason...
— Eu me ofereço como Protetor. — finalizou.
— E então Callum poderá pensar que você também está envolvido, Jason.
— Bem, se eu estiver, e ela morrer... — Jason a fitou. — Ele não terá com o que se preocupar.
Mais um surto se passou pelos olhos dela.
— O Juramento de Proteção é um dos Juramentos Perpétuos. — ela suspirou. — Jason Scott Cooper, o que raios você...?
— Sou um bellator. É meu dever. E, afinal, eu nunca dou as costas a uma missão suicida — ele sorriu.
— Jason — Louis o encarou. — Tem certeza quanto a isso?
Jason assentiu e começou a repetir o juramento.
— Eu juro acompanhar Gwen Cecilia Frey durante...
***
Gwen não estava nem um pouco feliz.
— Por que não posso estar lá enquanto eles decidem meu destino? — indagou ela a Daniel enquanto eles esperavam o fim da reunião na sala de estar.
— Deixe o Cooper fazer sua mágica — Abigail resmungou em tom de deboche.
— Por que ele pediu para a Lolla ficar? — Gwen continuava se dirigindo a Daniel.
Daniel era um daqueles garotos bonitos o suficiente para estar jogado em um sofá de camisa, jeans e descalço, olhando para o nada com uma expressão irritada no rosto e ainda assim parecer majestoso.
— Ela é boa em contornar as regras — disse ele. — Dificilmente é punida.
— É só por isso?
— Talvez ele queira alguém lá para testemunhar algum feito idiota e heroico que ele tem em mente.
— Achei que fossem amigos.
— Somos. Isso não torna os feitos dele menos heroicamente idiotas.
Daniel era normalmente tão cheio de vida e otimista. Era estranho para Gwen vê-lo tão revoltado.
— O que é isso na sua mão? — indagou Daniel de repente, apontando para a mão direita dela.
Havia uma marca esquisita, uma espécie de cicatriz.
— Não sei... Devo ter esbarrado em alguma coisa.
— Parece uma estrela de seis pontas — notou ele.
— São chamadas Estrelas de Davi, Knowles — corrigiu Abigail.
— É impressão — Gwen deu de ombros.
— JASON, SEU IDIOTA! PEDAÇO DE CARNE PODRE SEM CÉREBRO ESTÚPIDO!
Isso era Lolla gritando com Jason depois do fim da reunião. Não que ela geralmente fosse gentil, principalmente com ele, mas seus xingamentos estavam um pouco mais inspirados naquele dia.
Jason não estava prestando atenção. Olhava para sua mão, onde havia uma Estrela de Davi. Elas geralmente eram usadas para conceder proteção. Imaginou se havia uma na mão de Gwen.
— Jason, não finja que não está ouvindo — ameaçou ela. Odiava a falta de respeito que Jason tinha pela própria vida. Sempre se arriscando, sempre tomando a decisão mais ilógica. — Você ao menos sabe o que esse Juramento implica?
— Sei — ele a encarou. — Sou o Protetor da Frey. Devo protegê-la. Se ela morrer, eu morro junto. Entendido.
— Hã, eu sou a única que vê o quão grave é isso?
Jason sabia que Lolla se importava com ele, por mais que não admitisse. Ele também sabia que teria feito a mesma coisa se Lolla se tornasse Protetora de algum moleque por aí.
— Por que você fez isso? — perguntou ela, parecendo mais magoada do que irritada. Sua voz aguda magoada fez com que ela parecesse a Lolla de oito anos de novo, a única pessoa no mundo que era capaz de fazer Jason se sentir mal por algo que fizera.
Algumas coisas não mudavam
— É complicado, Lolla.
— Ai meu Deus — ela o interrompeu, de repente tendo certeza. — Você está apaixonado pela novata, não está?
Jason revirou os olhos.
— Não seja loira, Aryan. Opa. Tarde demais. Enfim — ele a encarou. — Ouviu o que Louis disse. Você é uma irritante sabe-tudo, mas não sabe o que há lá fora de verdade. A chegada da Frey muda tudo. Ela manipula realidades, Lolla. Imagine o que aconteceria se o poder dela fosse usado para fins obscuros?
Essa não era a única razão. Lolla não sabia sobre a profecia que ele recebera. Jason sabia que não era um blefe. Algo grande estava para acontecer.
— Afinal, você e a Frey são amigas ou não? — ele a encarou.
Ela sorriu de forma debochada.
— É complicado, Jason. — o imitou e saiu andando na frente.
Eles encontraram Daniel, Gwen e Abigail na sala de estar. Lolla tentou parecer feliz ao dar as notícias a Gwen.
— Parabéns! Você vai na droga da festa! E adivinha só? Nós vamos com você!
Depois de dizer isso, Lolla saiu andando e se trancou no próprio quarto.
— Você conseguiu? — Gwen fitou Jason, esperançosa.
— Eu te disse que conseguiria, Frey. Talvez agora você bote fé em mim.
Gwen abriu o sorriso maior e mais iluminado que Jason já havia visto no rosto dela. Ela levantou do sofá e o abraçou, afundando a cabeça em seu peito.
— Obrigada.
— O que aconteceu com a Lolla? — perguntou Daniel.
— Bem... — Jason não sabia o que dizer.
Mas Daniel não esperou pela resposta. Ele saiu correndo até o dormitório de Lolla. Bateu na porta e entrou. Encontrou a garota na varanda, olhando para o grande gramado.
— Ei, Lolz — ele sorriu. Era a única pessoa no Universo que a chamava de Lolz.
— Agora não, Daniel.
Ele ignorou o comentário e sentou-se ao lado dela.
— Quer conversar?
— Não.
— Quer que eu faça alguma coisa?
— Sim. Quero que cale a boca. E me abrace.
Daniel sorriu e a abraçou por um minuto, até que ela se sentisse à vontade para conversar.
— Você é meu melhor amigo, Dani. Sabe disso, não sabe?
— Claro que sei. Por que está me dizendo isso agora?
— Porque um monte de coisas tem mudado, e... E eu só não quero perder você também.
— Vai ficar tudo bem, Lolla.
Ela o fitou por um momento, e sorriu.
— Você não faz ideia do que estou falando, faz?
— Você me conhece bem demais, moça.
— Desculpe por estar evitando você.
— Espere — ele fingiu estar horrorizado. — Pausa. Lolla Aryan acaba de pedir desculpas?!
— Sim, mas não conte a ninguém. Você não está bravo?
— Não. O que quer que esteja acontecendo, pode me contar quando sentir que deve.
Lolla semicerrou os olhos, encarando-o.
— Parou com a gentileza fajuta.
Daniel sorriu.
— Ok, ok. Sério, estou morrendo, Lolla. Você está me matando com isso. O que está acontecendo?
— Pare de fazer com que eu me sinta culpada, idiota.
— Vai me contar?
— Não vou mais.
— Droga, eu deveria ter ficado com a gentileza fajuta.
Ela sorriu.
— Garotos gentis são uma espécie em extinção.
— Eu preciso ir agora, Lolz. Vejo você na tal festa?
Lolla bufou.
— Certo. Coloque uma roupa bonita.
— Pode deixar.
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