Daniel segurou a mão de Lolla enquanto ela se encaminhava para o Vocacionário, fazendo-a parar de andar.
— Sim? — ela o fitou com aqueles olhos azuis tempestuosos.
— Jason fez você fazer aquilo?
Para a surpresa dele, o comentário a fez sorrir.
— Jason? Qual é, Knowles. Como se eu fizesse alguma coisa porque Jason me fez fazer. — ela fez soar como um deboche. — Apenas achei que fosse o certo a fazer. Quando sinto que tenho algo a dizer, o faço.
— Eu não entendo você.
— Talvez não. Talvez ninguém entenda ninguém claramente. Talvez tudo seja uma ilusão. Talvez o mundo se parta em dois no próximo segundo e fiquemos tragicamente separados e jamais saibamos por que. — ela piscou. — Mas algumas dúvidas deixam as coisas interessantes.
Após dizer aquilo, Lolla saiu andando. Daniel sabia que ela dissera tudo aquilo para confundi-lo e desviá-lo da questão central. Não seria a primeira vez.
Quando chegou à Cerimônia Vocacional, Gwen estava posicionada ao lado de Jason, quieta, enquanto os membros da Corte se acomodavam.
— Sr. Cooper — chamou Callum. — Devo pedir que se sente.
— Na verdade, ele pode ficar aqui? — pediu ela. As palavras pularam para fora de sua boca novamente, e ela desejou não tê-las pronunciado.
Jason olhou intrigado para ela. Seu olhar dizia algo como Nervosa, Frey?
— Ficarei se a garota quiser que eu fique — decidiu ele, firme. Ela ficou surpresa por ele não ter feito piada com a situação. Parecia algo que ele faria naquelas circunstâncias. Ou em qualquer circunstância.
— Como desejar — prosseguiu Callum. — A Cerimônia Vocacional funciona de forma bem simples. Gwen Frey fará um juramento de lealdade perante a Corte, e então um sinal brilhará sobre sua cabeça, determinando sua Vocação, ou seja, seu Setor. Depois deverá coletar o amuleto feito com sua própria energia, seu comunicador com o Lugar e com seu posto.
Gwen engoliu em seco. Uma parte dela quis segurar a mão de Jason — precisava de qualquer apoio naquele momento —, mas não o fez.
Jason via que ela confiava nele, mesmo que só um pouco e que jamais fosse admitir. Ele se sentiu mal por estar guardando aquela carta de sua irmã no bolso do jeans naquele momento. Desejou que a carta apenas desaparecesse, mas as coisas não eram tão simples assim.
Callum recitou o julgamento e fitou Gwen esperando que ela o fizesse também.
— Eu, Gwen Cecilia Frey, juro lealdade perante a Corte e...
Foi quando o bolso de Jason começou a pegar fogo. Ele tentou apagá-lo com a mão — apenas mais uma de suas ideias estúpidas —, o que não funcionou. Gwen deixou escapar um grito quando viu, e logo começou a gritar com Daniel e Lolla.
— Água! Onde tem água?
Ninguém tinha água. As portas estavam fechadas. Lolla formou uma palavra com os lábios, mas Gwen não a identificou. Droga, tudo o que ela queria era que o fogo se apagasse sozinho...
Então finalmente entendeu o dizer de Lolla: Concentre-se.
Foi quando Jason percebeu que a calça parara de pegar fogo. Viu na expressão de Gwen que ela havia usado seu talento sem querer novamente, então tratou de bater estupidamente no bolso para fingir que o havia apagado com a mão.
Gwen congelou quando percebeu que todos os olhares estavam nela, já que Jason também a observava, uma atitude bem pouco inteligente.
— O que foi isso?! — exigiu saber Callum, visivelmente frustrado.
— Meu isqueiro. Estava no bolso. — disse Jason. — Acendeu sozinho.
Era uma explicação bem pouco razoável, mas Gwen sentiu-se grata.
— Isqueiros são considerados armas perante a Corte — lembrou Callum. — Portanto, proibidos.
— Devo sempre levar uma arma comigo. Sou um bellator, somos uma unidade independente.
— Ainda que independente, o senhor está sujeito às ordens da Corte.
— Jurei lealdade primeiro aos bellatores, e depois à Corte. Prioridades foram estabelecidas quanto a regras conflitantes.
Jason era mais sagaz do que deixava transparecer, pensou Gwen. Sua petulância às vezes não era só isso.
Foi quando uma voz preencheu a sala. Aguda e fria, arrepiou a garota, que não conseguia identificar seu paradeiro.
A Corte não a controlará, o que é seu será
Todos os segredos serão reinvidicados
Não se renda agora
Fuja sem demora
Salve o que lhe importa
Juramentos serão seu leito
Leito de morte, sim, dito e feito
Não se renda, não entre no sistema
Corra, Escolhida, corra
Corra para longe, ou morra.
Gwen estremeceu. Não entendera muita coisa, mas a última frase era o suficiente para despertar seu pânico. Todos pareciam aturdidos, mas a garota percebeu que apenas uma frase preenchia a sala, disponível aos ouvidos de todos os presentes:
Parem a Cerimônia ou a Corte sofrerá
Várias e várias vezes, aquilo parecia ser tudo o que eles ouviam. Gwen pensou nas frases que recebera, o aviso ritmado, e imaginou que fora a única a escutá-lo.
— A Corte deliberou — anunciou Callum. Mas já? Aparentemente, seu aviso tomara mais tempo do que ela pensava. — A Cerimônia será adiada. Gwen será aceita como membro honorária, e poderá permanecer no Lugar.
***
Jason também teve o desprazer de ouvir a voz assustadora. Negou quando Gwen perguntou. As palavras a assustariam ainda mais do que o assustaram, e de nada lhe serviriam.
Não tema
O garoto deve sofrer
A garota não deve perecer
E disso ele se assegurará
Concedendo proteção e segurança o fará
Seu destino em nada lhe favorece
Não há ninguém para ouvir sua prece
Não fracasse
Jason sabia que ninguém mais ouvira tal mensagem. Ele caminhava com Gwen de volta aos dormitórios, mas sua cabeça estava bem longe dali. Ele checou a carta depois do incidente com o fogo. Permanecia intacta. Não que ele já não soubesse disso antes, mas era óbvio agora que o fogo não era natural.
— Frey — chamou Jason quando eles chegaram ao corredor dos dormitórios.
— Sim?
— Foi você quem começou o fogo?
Ela estremeceu.
— Não. Afinal, o que foi tudo aquilo?
— Está perguntando ao cara errado.
— Você fica mexendo no seu bolso. O que tem nele?
Jason havia se esquecido da curiosidade monumental de Gwen.
— Nada.
— Não sou idiota, Jason.
— Jura?
Gwen o encarou, com seu olhar censurador de sempre. Ela se despediu dele e bateu a porta.
Obviamente, ela invadiu o quarto de Jason mais tarde. Nem ele nem Daniel estavam presentes, então ela apenas começou a revirar as coisas do moreno à procura do que fosse que estivesse no bolso dele.
O quarto já era tão massivamente bagunçado que eles jamais perceberiam. Gwen encontrou a calça que Jason vestira na Cerimônia, e logo enfiou a mão nos bolsos. De lá tirou um pequeno envelope escrito com uma letra caprichada que ela reconheceu: Miranda.
Olázinho, Gwen
Bom, sendo breve, vou dar uma festa no Domingo, nada muito chique, na casa de uma amiga. Só uma festinha de veteranos, mas eu realmente gostaria que você viesse. Sinto que deveríamos conversar sobre... Sabe, algumas coisas.
Ah, e você pode trazer um convidado se quiser. Mamãe disse que você fez um amigo.
Espero que esteja bem,
Miranda
Embaixo havia um endereço. Gwen se agarrou à carta como se fosse seu oxigênio, reprimindo a vontade de sair dali e dar um soco na cara de Jason Cooper.
Lolla em nada melhorara o humor de Jason.
— Daniel não está aí, né? Você não está me levando até ele? Isso não é uma armadilha, certo, Cooper?
Jason revirou os olhos.
— Aryan, qualquer que seja o motivo pelo qual você está se escondendo de Daniel, eu não dou a mínima.
— Não estou... me escondendo, exatamente — ela corrigiu, hesitando. — É só que tem algumas coisas que não quero explicar.
— Não quer ou não pode? Admita. Pensando melhor, você é orgulhosa demais para admitir que não sabe alguma coisa. É seu defeito fatal, sabe.
— E você é prepotente demais para admitir que não sabe alguma coisa.
— Você me xinga, desviamos do assunto, e você se safa. Conheço você há muito tempo, Aryan.
Ela sorriu.
— Sempre esperando o pior de mim.
— Eu poderia dizer o mesmo — ele a empurrou de leve com o ombro.
Ela o empurrou também.
— As coisas estão diferentes. Mas acho que algumas coisas apenas não mudam.
— Você consegue ficar mais irritante a cada ano.
— Cale a boca, Cooper.
Jason colocou o braço em volta dos ombros dela em um jeito mais enforcador do que afetivo. Eles riram enquanto ela tentava se soltar, e foi quando Jason abriu a porta do próprio quarto.
Gwen estava lá dentro com uma carta na mão. Oh, não, ele pensou. Os olhos dela se intercalavam entre Jason e Lolla, provavelmente esperando por uma explicação ou algo do tipo.
— Como. Você. Pôde?! — Gwen cerrou os dentes, fixando-se em Jason.
— Está tudo bem? — perguntou Lolla, perdida.
— Ah, ele não te contou? Jason...
Jason fitou Lolla com sua melhor expressão de Conversamos depois. A garota assentiu e saiu do quarto. Jason fechou a porta e se preparou para o drama.
— Eu não li a carta. Recebi-a ontem.
— Recebeu?
— A doutora Williams confiscou a carta pensando se tratar de algum tipo de farsa.
— É a letra de minha irmã.
A ideia o fez gelar na espinha.
— Mas como sua irmã saberia o endereço do Lugar, Frey?
Gwen pareceu considerar a ideia.
— Você deveria ter me contado sobre a carta.
— Eu queria contar, mas achei melhor esperar o fim do treinamento. Assim haveria mais chance de autorizarem a visita.
— Autorizar? Estou presa aqui ou algo do gênero?
— Não. É só que... Provavelmente emitiriam um certificado de Missão, já que a visita foi considerada fora dos padrões e até perigosa. Ah, e jamais deixariam que fosse sozinha.
— Eu quero ir, Jason. Eu tenho que ir. Depois de tudo o que aconteceu... — a voz dela falhou.
— Eu sei, Frey. Eu jamais impediria que fosse. Infelizmente, não cabe a mim.
— O que acontece se eu fugir?
Ele tinha certeza de que ela estava realmente considerando a opção. Jason se aproximou dela e segurou sua mão com força. Ela não o impediu. Ele se divertiu com o quanto os dedos dela eram longos e finos, quase desaparecendo em meio à mão dele.
— Me dê um dia.
— Por quê?
Ele sorriu.
— Tenho um plano.
Ela o fitou por um momento.
— Ok.
— Ok? Sério?
Ele não queria parecer tão surpreso com o desaparecimento instantâneo da teimosia dela, mas não conseguiu se controlar.
— É, sério.
Gwen queria perguntar por que ele se importava, mas sabia que a resposta seria a mesma de sempre:
Porque sim, Frey
A voz de Abigail retumbava na cabeça dela às vezes:
Jason Scott Cooper não se importa com ninguém além de si mesmo. Confie em mim.
Gwen não tinha mais certeza de que era capaz de pensar assim.
Jason bateu na porta de Louis cinco vezes antes que o senhor atendesse.
— Jason — Louis sorriu, como sempre que via o garoto. — A que lhe devo a visita?
— Preciso de uma reunião amanhã sobre a carta de Miranda Frey. A Little Frey sabe sobre ela.
Um adulto normal, e até mesmo Lolla, automaticamente culparia Jason e começaria um sermão censurador. Mas Louis preferia ater-se ao que de fato importava.
— Eu estava pensando na possibilidade de que ela pudesse ir — disse Jason, cauteloso.
Louis sorriu de forma intrigada. O garoto continuou falando:
—... Eu sei que pode ser uma armadilha, mas mesmo assim, principalmente depois do que aconteceu na Cerimônia, seria idiotice não investigar algo tão...
— Peça à srta. Frey que esteja na minha sala às 8 em ponto. Tenho certeza de que o senhor pode acompanhá-la. Chame a srta. Aryan, o sr. Knowles e a srta. Martinez também, por favor.
Jason sorriu.
— Valeu, Louis.
— Eu jamais recusaria um pedido altruísta de Jason Cooper. São raridades, geralmente valem uma fortuna.
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