Gwen não sabia o que dizer, então esperou que a doutora Williams fizesse perguntas.
— Como se sente?
— Estou melhor.
— Ainda está com tontura?
— Não muito — Gwen ainda se sentia meio tonta, mas tinha quase certeza de que não era por causa do desmaio.
— Posso lhe fazer uma pergunta?
— Hum, sim...
— Por que toda vez que você vem no consultório, Jason está na sua cabeça?
O comentário a fez corar.
— Não sei...
— Bem, se ajuda — a doutora baixou os óculos e fitou a garota. — Ele também estava pensando em você quando veio aqui.
— Achei que a senhora não conseguisse ler a mente dele.
Amelia sorriu.
— Raciocínio rápido, gosto disso. Tem razão, não consigo. Mas não precisei ler; ele mesmo disse isso.
— Ele me odeia.
— Ambas sabemos que isso não é verdade. Jason disse que você estava com a srta. Aryan.
Gwen notou que a doutora e Lolla provavelmente não se gostavam muito. A doutora sempre chamava Jason pelo primeiro nome, mas quando se referia à Lolla, era sempre "srta. Aryan".
— Sim, estava.
— Uma parceria perigosa, uma Frey e uma Aryan. Juntas, têm o poder de mudar o mundo, a não ser que destruam uma à outra ou a si mesmas antes disso.
— Inspirador — Gwen debochou. — E eu achando que minha mãe tinha perspectivas indecifráveis sobre minhas amizades.
— Aryan é sua amiga agora?
— Bem, não exatamente...
A doutora suspirou, parecendo aliviada.
A coisa à qual Jason se referiu como a "Formatura" de Gwen aconteceu no dia seguinte. Lolla apareceu também (provavelmente obrigada, já que era professora), além de Daniel, Finn e Hayley (os dois irmãos haviam terminado o treinamento no dia anterior).
Daniel acompanhava Gwen até o lugar onde acontecia a Cerimônia de Iniciação, nome que a lembrava de algum tipo de ritual illuminati, enquanto falava sobre um monte de coisas sem nenhuma relação. Gwen imaginou que ele fazia aquilo quando estava nervoso.
— Somos divididos em Coros... Ah, Jason já deve ter explicado a você sobre os Coros, não é... Bem, eu e Lolla somos do mesmo Coro.
— E qual é?
— O amor, Gwen Frey. Cuidamos dos relacionamentos das pessoas.
— E como ninguém nunca ouviu falar de vocês?
— Claro que já ouviram. Muitos nos classificam como um certo tipo de anjo. O primeiro de nós foi cultuado como um deus na mitologia greco-romana.
A ficha caiu.
— Cupidos.
— Sim, Cupido era seu nome romano. Recebemos o mesmo nome desde então.
Ela tomou um tempo para absorver aquilo.
— Então... Você é um cupido?
— Isso aí.
— E esse é um trabalho considerado... másculo?
Para a surpresa dela, ele riu.
— Faz sucesso com as garotas — deu de ombros. — Você me lembra a Lolla às vezes.
— Interessante.
— Ela também não pensa muito antes de falar.
— Parece que ninguém aqui pensa.
Daniel a fitou por um momento. Os olhos dele eram de um azul tão limpo. Gwen percebeu no mesmo momento que ele sabia o que se passava na cabeça dela. Não da mesma forma que a doutora Williams sabia.
Daniel era apenas bom com pessoas.
— Jason possui filtros. Ele apenas não se importa o suficiente para usá-los.
Gwen odiava a constante atitude suicida de Jason.
Eles chegaram a uma sala redonda contornada por muitas cadeiras, compostas por anjos. Anjos completos, batendo suas asas enquanto observavam Gwen. Na mais alta das cadeiras estava Callum. Vestia-se de branco, o que combinava com sua barba branca e tal. Quase tudo ali era dourado e majestoso, com aquele ar de antigo mas bem-cuidado.
Gwen deu um passo à frente, mas Daniel a segurou.
— Modos — lembrou ele. Depois assumiu sua expressão confiante natural e se voltou para a multidão de superiores. — Daniel Knowles, Criador do Destino, Setor A, Quarta Classe, materializador de Nível 3, presente à função de acompanhante.
Depois se virou para Gwen, como se esperasse que ela repetisse o feito. Ela o encarou, em pânico.
— Gwen Cecilia Frey, humm...
Daniel continuou por ela.
— Gwen Cecilia Frey, em treinamento para se tornar Criadora do Destino, Setor indefinido, Quinta Classe, talento não especificado, presente à função de inicianda.
— Atrium accipit vestri dedicatur — anunciou Callum. Todos os outros membros concordaram.
Gwen fitou Daniel à procura de tradução, mas ele também parecia perdido. Para garantir, fez uma reverência. Gwen o imitou.
As portas se abriram.
— A Corte aceita vossa dedicação — traduziu Jason, entrando calmamente na sala. — Estou atrasado para a festa? — Gwen lhe lançou um olhar censurador, mas ele não pareceu ligar. — Jason Scott Cooper, bellator, Setor Confidencial, Quarta Classe, bloqueador de Nível 5, presente à função de espectador, tradutor e paixão platônica da inicianda.
Gwen forçou mais ainda o olhar censurador, mas Jason ainda não parecia ligar.
— Atrium accipit speciem tuam, et serotinum — disse Callum.
— A Corte aceita vosso atraso e vossa especificação — traduziu Jason baixinho para Gwen.
— O Criador do Destino deve sentar-se — Callum indicou uma cadeira no canto da sala e Daniel sentou-se. — A inicianda não será punida pelas indulgências do companheiro romântico.
Gwen não se dava bem com palavras difíceis, mas entendeu o que aquilo queria dizer.
— Ele não é meu namorado!
Jason deu-lhe uma cotovelada, temendo a reação da Corte. Ele não dava a mínima para o que aquele bando de velhos achava dele, mas não queria prejudicar Gwen.
Para sua surpresa, Callum sorriu.
— Como desejar.
— A srta. Frey não está de forma alguma sujeita à forma como ajo — Jason especificou. — Como eu disse, estou aqui apenas para assistir e traduzir.
— Muito bem. Gostaria de pedir que a pessoa responsável pela análise psicológica de Gwen Cecilia Frey se levante.
Amelia Williams levantou-se.
— Amelia Rita Williams, psicóloga, Terceira Classe, Legilimens de Nível 5, presente à função de avaliação das condições mentais da inicianda.
— Atrium agnoscit tua disciplina.
— A Corte reconhece vossa capacitação — sussurrou Jason, mas fez soar como um deboche.
— Prossiga com a avaliação, srta. Williams.
— Pois bem — a doutora suspirou. — Venho avaliando Gwen Cecilia Frey diariamente, durante trinta minutos, desde sua chegada no dia dez de Junho. Gwen parece bastante determinada, porém impulsiva, e tende a se distrair facilmente. Por tais razões, mesmo que eu não desconfie de suas boas intenções absolutas, talvez não fosse sensato...
Jason encarou Lolla, que estava sentada em uma cadeira na ponta da sala com os outros professores enquanto fingia não existir, porém ele tinha certeza de que ela sabia onde aquele depoimento terminaria. Qualquer argumento que Jason propusesse à Corte seria ignorado. Ele precisava de Lolla.
A garota suspirou baixinho e se levantou.
— Com licença, senhores — disse Lolla em sua erudição e audácia típicas. — Sinto a necessidade de lembrar-lhes que o dever de Williams para com a inicianda foi descrito para a paciente como algo terapêutico devido à grande mudança que ocorreu inesperadamente na vida desta jovem. Diz-se coisas pessoais em um consultório psicológico, e vejo a privacidade da paciente se esvairindo quando as coisas que ela disse à terapeuta em um lugar mostrado como "seguro" — ela fez aspas com os dedos. — são usadas contra ela em algo que se tornou um julgamento.
Jason sorriu. Ele jamais deixaria de se impressionar com a sagacidade de Lolla Aryan.
A Corte não parecia entrar em acordo. Alguns protestavam, mas Callum a fitava com interesse.
— Apresente-se, jovem — pediu, calmo.
— Lolla Alison Aryan, professora e Criadora do Destino, Setor A, Terceira Classe, leitora de Nível 4.
— E quinze anos — completou Williams. — Quinze anos.
— Atrium agnoscit sapientiam tuam. — disse Callum.
— A Corte reconhece vossa sabedoria. — traduziu Jason, parecendo satisfeito.
— Na qualidade de professora, também avaliei, com a ciência de Gwen, seu desenvolvimento. Ela demonstrou grande facilidade de aprendizado e eu não duvido de sua capacidade de exercer com perfeição o cargo.
— Senhor, devemos considerar a pouquísssima experiência da Aryan... — começou a doutora.
— Eu me lembro de sua iniciação, srta. Aryan — comentou Callum, interrompendo Amelia. — Três anos atrás. Extremamente sensata e inteligente. E quanto à experiência dela, doutora Williams, se ela não fosse completamente capaz de tal avaliação, não teria sido convocada para o cargo de professora.
— Eu fui contra...
— Justo. Mas a decisão não cabe a você.
Jason vibrou baixinho, esforçando-se para não tirar sarro da doutora.
— A srta. Aryan também foi minha paciente — argumentou a doutora Williams. — Ela convenientemente esqueceu-se de comentar sobre sua especialização no campo de leitura de mente.
Gwen soube pela expressão no rosto de Callum que ele tinha consciência da informação e não a achava relevante, mas mesmo assim ele se virou para Lolla.
— Gostaria de dizer algo sobre isso?
Lolla revirou os olhos.
— É verdade que nasci com a capacidade de deduzir com mais facilidade os pontos fracos das pessoas, o que foi o ponto de partida para que eu pudesse expandir muito mais o termo "leitora". Atualmente uso meu talento para ver as maiores dificuldades dos alunos e ajudá-los a contorná-las, como especifiquei quando solicitei o cargo.
— Muito bem então. Quero falar com a garota.
Mas Callum não olhou para Lolla. Ele olhou para Gwen, que ainda estava meio aturdida pelo o que acabara de ouvir. Lolla sabia os pontos fracos de todos naquela sala e a melhor maneira de atingi-los. Gwen tremeu ao imaginar o quanto a loira sabia sobre ela.
— Olá, querida — Callum sorriu. — Perdão. Não costumamos ser tão burocráticos.
— Humm... — Gwen murmurou enquanto pensava em algo pertinente para dizer.
— A senhorita parece causar discórdia na Corte.
— Desculpe — as palavras pularam para fora da boca dela.
Jason se divertiu em silêncio. Gwen tinha aquele jeito tão... Tão dela. Era como se a garota de preto com mechas roxas no cabelo e a garota certinha que enrubescia sempre que achava ter feito alguma coisa errada nunca entrassem em consenso, mas ao mesmo tempo se encaixassem perfeitamente.
— A senhorita gostava das sessões de terapia?
— Eu...
Callum sorriu. Ao ver de Jason, não parecia um sorriso exatamente gentil. Trazia uma espécie de interesse.
— Entendo. Devo parabenizá-la por suas notas em Abertura e Bloqueio da Mente, foram impressionantes.
Gwen se deu conta de que não havia checado suas médias finais. Nem havia lhe ocorrido que elas existiam.
— Bem... Obrigada.
— Encontrou facilidade nessa matéria?
— Suponho.
— Qual seu sobrenome, novamente?
— Frey.
Callum ficou em silêncio, como se aquilo decidisse tudo.
— Senhor, realmente não vejo necessidade em toda essa conversa e teatralidade... — protestou Lolla.
— Deveríamos fazer uma votação — sugeriu a professora de Latim, a sra. Montgomery, falando pela primeira vez.
— A garota está aprovada — anunciou Callum imediatamente.
O salão permaneceu em silêncio durante um minuto.
— Se... Senhor? — a doutora Williams disse, cautelosa.
— Gwen Cecilia Frey deve ser encaminhada ao Vocacionário.
Gwen olhou para Jason à procura de... Bem, não sabia ao certo o quê. Informação, socorro, confirmação... Pensando melhor, imaginou que apenas não queria sentir-se sozinha. Enquanto Jason a fitava, ela desejou saber o que se passava na mente dele.
Quando estava saindo da sala, ela viu que alguns dizeres em latim estavam escritos na maior das paredes:
"Libertas est illusionem sine quibus homo non potest superesse"
Antes que ela pudesse pedir uma tradução, Jason a acompanhou até uma sala semelhante a que estavam, exceto pelo fato de que havia um pedestal ornamentado feito de ouro no centro dela. Nada havia nele.
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