sexta-feira, 3 de maio de 2013

Ninguém se importava


Não tive uma infância estável, nem sequer feliz. Achei que o ápice de minha depressão fora a adolescência, mas apenas piorou depois disso. Eu tinha quatorze anos quando aconteceu.
Justin. Ele era um bom garoto, tinha treze anos quando o conheci. Sofria de várias doenças psicológicas, principalmente depressão. Apesar de tudo, era meu melhor amigo. Ficávamos juntos vinte e quatro horas no dia, e eu o amava como nenhum outro. Como ambos sofríamos da doença, frequentemente falávamos sobre depressão, e sobre tirar nossas próprias vidas em mais de uma ocasião. Nunca achei que ele fosse realmente fazê-lo, então deixei para lá.
Bem, no outono de 2007, eu e meus pais havíamos planejado uma viagem à cidade vizinha. Em meu último dia na escola, Justin não compareceu, mas veio me ver em casa depois disso. Ele me olhou nos olhos com um medo que nunca esquecerei e disse "Eu preciso de você. Por favor, não vá". Eu o ignorei. Provavelmente disse algo como "Relaxa, eu volto em um mês, você vai ficar legal" e lhe dei as costas.
Em meu penúltimo dia de viagem, recebi uma ligação de Justin. Ele me perguntou apenas uma coisa: "Julie, existem coisas piores que a morte?". De imediato, respondi que sim. Não percebi o que ele planejava fazer. Era apenas minha resposta automática quando pensava em tudo pelo o que eu e ele havíamos passado.
No dia seguinte, recebi outra ligação do mesmo número. Mas dessa vez, não foi Justin quem falou comigo ao telefone. Foi sua mãe. Houvera um tiroteio na escola. Estavam evacuando o prédio naquele momento e ela me disse que os bombeiros não conseguiam achar Justin. Ela me perguntou se eu sabia onde ele poderia estar. Eu disse que não, mas que chegaria na escola o mais rápido possível.
Falei com meus pais. Eles não entendiam minha urgência. Eu estava fora de mim. Apenas a simples ideia de que Justin podia estar correndo perigo... Eu tinha que estar lá por ele, ele tinha de saber que eu me importava.
Cheguei à escola meia hora depois. Os bombeiros disseram que era perigoso entrar, mas a mãe de Justin me dissera que ainda não haviam achado o garoto. Eu invadi o prédio sem hesitar, sem que ninguém visse.
Corri por pelo menos cinco minutos. Metade das luzes estavam apagadas, e meu pânico era tão forte que desfocava minha visão. Meu cabelo escuro caía em minha boca, mas eu não tinha controle o suficiente para afastá-lo. Meus sapatos não eram confortáveis. Droga, se eu ao menos estivesse de tênis... Luzes desfocadas e corredores estreitos dançavam diante de meus olhos, e eu corria tão rápido e há tanto tempo que nem sequer sentia mais minhas pernas. Eu tinha apenas um pensamento em minha cabeça, a única coisa que me impediu de enlouquecer: Justin.
Foi então que o vi. Seu cabelo estava bagunçado e suas roupas estavam rasgadas, mas eu nem sequer me ative a isso. Havia um olhar em seu rosto que eu jamais vira, algo como um certo pânico animal, talvez até um pouco maníaco. Em sua mão esquerda, que tremia descontroladamente, havia um pedaço de papel. Na mão direita, uma arma. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, fazer qualquer coisa... Sequer pensar em algo para dizer, ele levantou a arma.
Um grito morreu em minha garganta quando ele pôs a arma na própria boca e puxou o gatilho.

Depois de algum tempo, encontrei o papel que vira em sua mão esquerda. Nele, estava escrita apenas uma frase, que reconheci ser na caligrafia de Justin: "Ninguém se importou o bastante para ficar".
Eu literalmente senti meu coração quebrar, o vazio invadindo meu corpo e me fazendo desabar. Eu o amava tanto. Mais do que podia colocar em palavras. No funeral dele havia mais de 200 pessoas. Ele achou que ninguém se importava. Eu vi pessoas chorando, gritando, implorando que ele voltasse... Ele achou que ninguém se importava. Todo mundo se importava.

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