Encontro-me em um estado mais de refletir do que de falar. Afinal, a mente não se limita a palavras. Porém, tentarei transmitir meus pensamentos aqui.
Eu tomei uma decisão. Tenho consciência disso. A dor que sinto, a que me corrói por dentro e me quebra em pedaços quando bem entende, eu a escolhi. Poderia tê-la tirado de meus ombros facilmente, mas não o fiz. Afinal, não se pode fazer uma dor sumir. Nesse caso, eu precisaria transmiti-la. Transmiti-la para uma das minhas pessoas favoritas no mundo, uma pessoa que é raio de sol nos dias nublados. E como, de alguma maneira, seria eu capaz de fazê-lo?
"Tudo por ela", eu disse. "Qualquer dor que eu sinta não se compara a que eu sentiria se a machucasse. O problema é... E se eu já estiver machucando?"
"A verdade, sempre a verdade", dizem eles. Mas seriam eles capazes de trazer à tona uma verdade que sabem que a vítima não seria capaz de suportar? "A verdade, sempre a verdade", uma voz continua retumbando em minha cabeça.
Disse a mim mesma para ser forte. Tudo passa. Mas é tão difícil ser forte quando tenho de encarar minha kriptonita pessoal todos os dias. Todo dia, lá está você, olhando para mim. Às vezes sorri, e então desabo. Todo dia, lá está você, como uma lembrança constante enviada pelos infernos, uma lembrança do que fiz — e do que deixei de fazer.
Não sei dizer qual dói mais. É como ser nocauteado em seu Calcanhar de Aquiles todos os dias e não morrer. Ao invés disso, sentir aquela dor profunda e aguda que não passa. De certo, há coisas piores que a morte. "Tudo por ela", repito quando te vejo.
Te ignoro, sabendo que é o certo a fazer, mas parece que você sempre está lá, em cada curva, em cada direção. "A suspeita sempre persegue a consciência culpada; o ladrão vê em cada sombra um policial.", escreveu Shakespeare uma vez. A consciência que tenho da verdade disso é tão presente que machuca.
Mas tudo isso, todo o lado racional, parece sumir quando você sorri. O sorriso branco, uma luz brilhante na completa escuridão, o primeiro raio de sol numa manhã nublada... Não existe nada de mesquinho ou presunçoso no seu sorriso, apenas um tipo de gentileza inconsciente. Um sorriso tão bonito que poderia refletir a alma, e por algum tempo imaginei que refletisse, mas agora tenho que repetir a mim mesma que não é assim. Minha parte racional continua me lembrando de tudo o que você fez, e quando tento te dizer tudo o que preciso dizer, as palavras não saem.
Gostaria que as pessoas se parecessem com suas personalidades. Isso simplificaria tudo.
Ela diz que tenho uma queda por garotos bonitos. Isso não é verdade. Não que ela saiba de ao menos 5% da história, mas me conhece bem.
Não tenho uma queda por você, nem ao menos simpatizo com você. Não sinto como se estivesse voando, ou efetivamente caindo, como se o chão não existisse. Você é minha fraqueza, e não de um jeito bom. Sei que o chão continua lá, mas sou fraca demais para suportar ficar de pé nele. Quando você se aproxima, parece ser mais difícil me livrar da sensação de que tem algo errado.
Não deveríamos nos falar. Por que você complica tudo? Seria melhor se nunca tivéssemos conversado, na verdade. Pensar na diferença é quase terapêutico.
Minha amiga me perguntou algo e eu respondi que "sei lá". Ela se surpreendeu, afinal, sempre tenho resposta para tudo. Percebi que ela tinha razão. A antiga eu saberia o que dizer, para quem dizer, quando dizer, o que fazer, com quem fazer... Ela teria um plano e saberia exatamente os passos infalíveis para completá-lo. E acredite quando eu digo que quero ser a antiga eu novamente, mas ainda estou tentando encontrá-la nesse redemoinho de sentimentos e tormento que me encontro.
"Afinal, todo mundo consegue dominar uma dor, exceto quem a sente".
"Tudo por ela", repeti uma última vez.
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