Nós dois ficamos em silêncio por alguns minutos, apenas observando a fogueira. Meu pai sempre me disse que apenas duas pessoas em perfeita sintonia podem fazer companhia uma à outra em silêncio sem ficarem desconfortáveis.
Notei que tal lição fazia algum sentido. De alguma forma, eu me sentia confortável ali onde estava. Mesmo que estivesse um pouco frio, escuro, eu estivesse com sono e sentado no chão, não sentia vontade de abandonar aquele momento. Eu não sentia aquele tipo de paz há um bom tempo.
Sam estava tão imóvel que por um momento me perguntei se ela havia adormecido. Estava sentada com os braços abraçando as pernas dobradas. Seu olhar parecia distante. A fogueira refletia em seus olhos cinzentos, fazendo-os parecer que crepitavam com o fogo.
— No que está pensando? — perguntei de repente.
Ela não respondeu de imediato, mas se virou e olhou para mim quando o fez.
— Não sei.
— Está com sono?
— Sim — confessou. — Mas não planejo dormir tão cedo.
— Eu comi demais, então agora estou sofrendo com o efeito comer-dormir.
O comentário a fez curvar o lado esquerdo do lábio para cima.
— Sorte a sua. Eu não comi nada.
— Não gosta de frango assado?
— Sou vegetariana, Joshua.
— Ah.
— Você parece surpreso.
— Sei lá. Sempre vi vegetarianos como pessoas que são preguiçosas demais para caçar.
— Você fala como se realmente caçasse sua própria comida.
Dei de ombros.
— Se serve de algo, você é a vegetariana mais legal que eu já conheci.
Ela ficou em silêncio por um momento, olhando em volta, até que me chamou baixinho:
— Ei.
— O que foi?
— Tiffany sumiu.
— Isso é bom, certo?
— Claro, o Bin Laden fora do campo de vista faz todo mundo se sentir seguro.
Enquanto procurava Tiffany com os olhos, notei que Luke me encarava com uma expressão interessada. Por via das dúvidas, acenei.
— Você e o sr. Machão são amigos agora? — Sam ergueu uma sobrancelha.
Dei de ombros.
— Algo assim. Ele tem uma quedona por você, mas acho que sabe disso.
— Ele TINHA uma queda por mim. Depois do negócio da bomba, duvido seriamente.
Escondi um sorriso.
— Talvez esteja certa. O olhar dele não parece fuzilador.
Sam continuava me fitando. Quando a olhei nos olhos por alguns segundos, me dei conta de algo: pela primeira vez, o olhar dela também não parecia fuzilador. Parecia mais ameno, quase sociável. "Decidido, porém vulnerável": isso basicamente definia o olhar, e até mesmo a ela mesma.
Olhei para a mão dela, que estava batucando no chão. Lembrei-me do toque de nossas mãos quando pulamos do penhasco. A sensação de segurança.
— Sam.
— Sim?
— Lembra de quando eu te disse que não tinha medo de altura?
— Lembro.
— Então, eu menti.
Ela franziu o cenho.
— Vinte segundos de insanidade.
— Vinte segundos de insanidade.
Um surto de entendimento transpareceu nos olhos dela, e imaginei que o mesmo surto se passava pelos meus. Uma espécie de conexão.
Uma conexão que foi interrompida quando Barbie pigarreou atrás de nós. Sam foi trazida de volta à realidade com tanta força que bateu a cabeça no tronco de árvore em que apoiava as costas.
— Desculpe — Barbie deu um sorriso fraco. — Pela batida e por, hm, interromper.
— Não está interrompendo — Sam respondeu tranquila. — O que foi?
— Você precisa vir comigo. Agora.
Talvez tivesse visto nos olhos de Barbie que era importante, pois apenas assentiu e tornou a me fitar.
— Já volto.
— Ok.
Sam se levantou e saiu correndo atrás de Barbie até o chalé das garotas. Fiquei sentado por um tempo indefinido, observando o crepitar da fogueira. Continuei pensando em tudo o que acontecera. Eu tinha que falar com alguém. Não podia falar com Sam. Muito menos com Luke. E foi então que me lembrei do confessionário.
Levantei-me e caminhei um pouco até chegar à conhecida cabine fotográfica. Puxei a cortina e sentei no banquinho. Liguei a câmera e a fitei por um momento sem saber por onde começar.
—... Oi! — esbocei um sorriso. — Então... Se eu falar alguma besteira, vou culpar o sono. É. A culpa é do sono. Ah. Estou com sono. Já disse isso? Hm, indo para o que importa... Eu tenho fobia de altura. Tinha medo até de roda gigante. E, é, eu pulei de um penhasco. Pensei em descrever a sensação, mas não sei direito. O momento de pânico era muito grande, e eu havia fechado os olhos. Foi como... Vinte segundos de insanidade. — a lembrança me fez sorrir. — Sam parecia um pouco aflita também, mas não gritou. Ela apenas segurou minha mão com força. Fiquei feliz por ela o ter feito. Não porque eu gosto dela, porque não gosto. Quero dizer, ela é legal, e somos amigos... Acho que somos, ao menos, mas... Hm, enfim. O motivo real foi porque a mão dela era a única coisa que me prendia à realidade. O último resquício de sanidade. E, apesar de todo o medo... Eu me senti vivo.
Fiz uma pausa, repetindo em minha mente as palavras que usara. "Eu me senti vivo". Era verdade, me dei conta.
— A verdade é que o fato de você respirar quer dizer que você existe. Não quer dizer que você está vivo.
Desliguei a câmera e voltei para o acampamento. Uma corrente de ar frio gelou minhas bochechas. Entrei no chalé dos garotos e peguei dois cobertores de microfibra. Depois voltei para a fogueira. Sam estava sentada exatamente como antes, observando a fogueira. Quando me aproximei dela, ela espirrou.
— Imaginei que estivesse com frio — disse eu, mostrando os cobertores. — Se você quiser um pouco de calor humano, não me importo de dividir um cobertor.
Ela apenas ergueu uma sobrancelha.
— Imaginei — dei de ombros. — Por isso trouxe dois.
Sentei-me ao lado dela, entregando-lhe um dos cobertores.
Passamos a noite inteira em claro. David foi o segundo a dormir, seguido de Brianna, Tiffany, Maddie, e depois Barbie. Luke continuava sentado no mesmo lugar, olhando para cima enquanto ouvia música em um iPod rosa que imaginei ser de Maddie.
— Isso é tão bonito — disse Sam de repente.
Percebi que ela se referia ao nascer do sol. Eu raramente o assistia. Nova iorquinos são tão ocupados e ambiciosos, não dão importância a coisas tão simples.
— É mesmo.
Quando olhei para ela, percebi que nossos corpos estavam quase se encostando. Quando aquele aproximamento ocorrera?
— Sabe — comecei. — Quando você saiu com a Barbie, fui até o confessionário. Pensei em quando pulamos do penhasco, da sensação. Me fez perceber muitas coisas, como...
Parei de falar quando notei que ela havia encostado a cabeça em meu ombro. Porém, não me virei para fitá-la, pois não queria deixá-la constrangida, então apenas continuei olhando para o céu.
—... Como o quanto o medo nos impede de fazer as coisas — continuei. — Talvez nosso cérebro seja medroso, pois sempre desistimos quando pensamos demais. E se essa for a função do coração? Às vezes parece que as coisas mais sem sentido são as que nos fazem sentir mais. — fiz uma pausa. — Certo?
Virei-me, esperando por sua resposta, quando um pequeno suspiro escapou de seus lábios. A respiração dela havia desacelerado e seus olhos estavam fechados. Ela havia adormecido.
Por um momento memorizei o quão pacífica ela parecia enquanto dormia. Entrava em uma espécie de paz de espírito inquestionável, sem se mexer nem uma vez.
O cobertor dela estava caído à sua esquerda, e ela parecia um pouco encolhida. Peguei meu próprio cobertor e a cobri com uma das pontas.
— Boa noite, Samantha — sussurrei.
Quando pensei que ainda teria que esperar Luke dormir, me deparei com uma surpresa: ele estava roncando do outro lado da fogueira. Um suspiro aliviado escapou de minha boca. O capitão Shelton anunciou baixinho minha vitória. Mas eu não queria comemorar. Então apenas me ajeitei com cuidado para não acordar Sam e dormi.