quarta-feira, 6 de março de 2013

Adolescentes Selvagens; Capítulo 19: Barbie


Tudo o que eu queria era jogar Tiffany e seu maldito sapato novo dentro de um buraco de árvore. E encher o buraco com esquilos raivosos.
- Sem querer ser chato... - Josh começou, incerto. - Mas talvez devêssemos acelerar um pouco o ritmo.
- Deveríamos nomear um líder - Sugeriu Tiffany.
- Um líder não nos faria correr mais - Apontou Sam. - Vamos logo, seus inúteis. Não sei vocês, mas eu quero almoçar. Talvez possamos achar frutas na floresta...
- Bem, eu não posso correr mais do que isso - A loira revirou os olhos. - Esses sapatos são Prada.
- Eu sou a favor de deixá-la para trás - Comentei. - Quem sabe ela se perde e morre?
- É a melhor ideia desde que chegamos aqui! - Sam bateu palmas. - Todos a favor? Não, Josh, eu não ligo se você acha isso imoral. Agora pegue essa sua energia de atleta babaca e CORRA, antes que eu te obrigue a fazer isso.
Corremos por quarenta e cinco minutos. Tiffany já havia esgotado todas as suas frescuras, eu já estava escorrendo de suor em lugares que nem sabia que era possível escorrer de suor e Sam parecia prestes a desmaiar. Josh mantinha o ritmo perfeitamente.
- Como... Como você... faz... isso? - Sam perguntou, arfando.
- Isso o quê? - Josh fitou-a.
- Cor...rer...
- Atleta babaca, lembra-se? - Ele abriu um sorriso satisfeito.
É possível alguém ficar sexy com o cabelo todo cheio de suor? Porque Josh estava fazendo um excelente trabalho quanto a isso.
Eu poderia descrever toda a caminhada cansativa, mas seria inútil. Ela foi exatamente igual durante toda a sua duração, ou seja: Um porre.
Sam estava conversando com Josh e, pelo tom da conversa e expressões faciais do garoto, ela estava reclamando. E já estava fazendo isso há um bom tempo.
Tiffany resmungava alguma coisa ininteligível que eu aprendera a ignorar.
- A gente já não passou por aqui? - Indagou Sam.
- Estou com essa impressão desde que começamos a andar - Suspirei.
- A caminhada faz bem... - Comentou Josh.
Fiquei agradecida quando Sam deu um tapa no braço dele em resposta ao comentário.
- É como se estivéssemos andando em círculos nesse lugar maldito - Completou ela.
- PORQUE VOCÊS ESTÃO ANDANDO EM CÍRCULOS! - A voz do capitão Shelton ecoou nos auto-falantes. - A OUTRA EQUIPE JÁ CHEGOU HÁ UMA HORA E MEIA! VOCÊS PERDERAM O ALMOÇO!
O que Sam proferiu depois foi uma série de palavrões em cinco línguas, incluindo algo que classifiquei como latim.
- Você fala latim? - Perguntei, curiosa.
- Não - Respondeu ela. - Mas meu ex colega de detenção falava latim. Ele era meio maluco, e tinha depressão. Sempre que algo dava errado, ele soltava uma série de palavrões em latim. E como estávamos na detenção, as coisas davam errado muito frequentemente. Como podem ver, detenções podem ser muito educativas.
Eu não tinha tanta certeza quanto a isso, mas não contestei. Depois de algum tempo que eu prefiro não especificar quanto, conseguimos chegar ao refeitório. Acabou que ele era, na verdade, bem próximo de onde estávamos.
Em uma mistura de deboche, triunfo e tédio, os Guaxinins começaram a nos aplaudir. Eu realmente esperava que eles tivessem uma dor de barriga terrível com aquele almoço maravilhoso.
Nós quatro paramos na porta, sem saber muito o que fazer, até que Sam tomou a dianteira e caminhou confiante até a mesa dos Quatis. Fizemos o mesmo.
- Ei, Price - Luke abriu um sorriso malicioso para Sam. - Nosso banquete foi muito bom. Teve carne, ovos, peixe, e até lagosta...
- Eu sou vegetariana, imbecil - Ela revirou os olhos. - Vá engasgar com a sua carne nojenta e me deixe em paz.
- Agora que os molengas chegaram, podemos continuar - Disse o Capitão Shelton.
- Espere, ainda não acabou? - Interrompeu Maddie, confusa.
- Obviamente não.
- Mas... Corremos vinte quilômetros e comemos esse banquete enorme. Eu não aguento nem ficar em pé. Precisamos dormir.
- O que vocês farão! - O capitão sorriu. - ...Ao final do desafio. Cujo eu não faço ideia de quando terminará, já que é um desafio de resistência.
Havia muitas coisas que gostaríamos de dizer naquele momento, mas todas elas foram resumidas pelo riso debochado de Sam enquanto ela zombava de Luke.
- O último a ficar acordado ganha o desafio - Declarou o capitão. - Pelo o que parece, os guaxinins estão em uma pequena desvantagem, desde que os quatis saibam se virar de estômago vazio... Encontrem-me em dez minutos no auditório.
- Tem um auditório aqui? - Perguntei.
- Sim, e vocês saberiam disso, caso tivessem feito o tour. O auditório fica atrás dos chalés.
Saímos para nossos dez minutos no chalé. Escovei meus dentes e coloquei sapatos mais confortáveis.
- Você vai levar o seu iPod? - Ergui uma sobrancelha para Sam.
Ela deu de ombros.
- Prefiro Green Day berrando em meus ouvidos do que o capitão Shelton.
Fazia sentido. Caminhamos até o tal auditório e nos sentamos em tocos de madeira nada confortáveis (afinal, eram tocos de madeira).
- Pontos extras para Price e Seaton pela excelente escolha de sapatos - Shelton anotou em sua prancheta, apontando para os coturnos de Sam e Luke. - É bom estar preparado para a guerra antes que a guerra se prepare para você.
Luke sorriu para Sam, mas ela o ignorou.
- Podemos andar logo com isso? - Pediu Tiffany impaciente.
- EU LHE DEI PERMISSÃO PARA FALAR, SOLDADO?
Maddie ergueu seu braço.
- O que foi, Stewart? - Shelton ergueu uma sobrancelha.
- Podemos, por favor, prosseguir, senhor?
- Certamente - Ele sorriu. - Veem, seus legumes podres? Deveriam usar essa garota como exemplo.
- Se fizermos isso, vamos acabar todos usando uma tiara e um suéter de lhama rosa - Luke revirou os olhos.
- Espere... Um suéter feito de lhama, ou um com um desenho de lhama? - Indagou Chloe.
- Por que isso importa? Algum dos dois lhe parece legal?
- Se as duas moças já acabaram com o papinho fashion - O capitão limpou a garganta. - Eu vou explicar o primeiro desafio.
- E quanto à corrida? - Disparou David. - ...Senhor.
- Ah, não. Aquilo era só o aquecimento.
Ele estava zoando com a minha cara. Tinha que estar.
- O desafio é o seguinte - Começou ele. - Dentro desta caixa, há papéis com desafios. Escolherei um de vocês para pegar um papel. O desafio será o mesmo para ambas as equipes. Caso algum membro da equipe se recuse a completar... - Ele abriu um sorriso malvado. - Essa pessoa ficará sob meus cuidados pessoais, e devo alertá-los, não será nada agradável. Rebelde, você pega o papel.
Sam e Luke levantaram de seus tocos de madeira. Ao perceberem isso, se encararam por um longo momento.
- Quero dizer a garota - O capitão revirou os olhos. - Você é o delinquente, ela é a rebelde.
- E qual o nexo disso?! - Luke protestou.
- HA! - Sam abriu um sorriso triunfante. - Toma essa, idiota.
- Sorte de principiante.
- E que tipo de veterano é você, sendo derrotado por uma principiante?
Eu não entendia realmente por que "rebelde" era tão melhor do que "delinquente", mas o que eu sabia sobre rebeldes... ou delinquentes? Tudo o que sabia era que ver Luke se dando mal era muito divertido.
Sam caminhou até o palco e pegou um papel. Ela torceu o nariz.
- Desarmar uma bomba de fedor.
- Fácil - Luke deu de ombros. - Suponho que saiba fazer isso.
- Delinquentes aprendem como desarmar bombas - Ela sorriu. - Rebeldes, não. Afinal, você não geralmente arma as bombas?
- Sim, mas há a chance de meu inimigo me mandar uma também.
- Então, alguma de vocês moças sabe desarmar? - Josh abriu um sorriso fraco, olhando para o resto da equipe.
Silêncio mortal.
- Vamos acabar logo com isso - Levantei do toco. - Onde está a maldita bomba?
- No meio do campo.
- Ótimo. Vamos, equipe.
Saímos andando até a tal bomba, que consistia em uma lata cheia de lixo com um cronômetro que começou a contar quando chegamos. Tínhamos exatamente 2min55s.
- Barbie, pode começar - Pediu Josh.
- O quê?! Eu não sei desarmar isso!
- Mas você... Ah, esqueça.
- Temos que escolher entre o fio verde e o azul - Declarou Sam, que analisava a bomba. Ela estava dando seu máximo para parecer calma e confiante, mas eu podia ver que ela tinha tanta ideia do que fazer quanto o resto de nós.
- COMECE COM O FIO VERDE! - Gritou Luke ao longe.
Silêncio.
- Cortem o azul - Decidiu Sam.
- Espere - Josh pediu. - E se ele estiver falando sério?
- Não seja tolo - Ela revirou os olhos.
- E se ele estiver usando psicologia reversa? Tipo... Falando verde, para que pensemos ser o azul, quando na verdade é o verde?
- Joshua - Ela abriu um pequeno sorriso calmo, como se estivesse falando com uma criança de seis anos. - Estamos nos referindo a Luke. Ele tem o cérebro de uma ameba subnutrida.
- Dois minutos e meio - Declarou Tiffany. - Eu voto em azul. Combina com os meus olhos.
- O que acontece se cortarmos os dois cabos de uma vez? - Sugeri.
- Só Deus sabe - Sam suspirou.
- Deus e Luke - Corrigi. - E se...?
- Não vou fazer acordos com terroristas - Declarou ela, firme.
- Afinal, como vamos cortar o fio? Espera que o roamos com os dentes?
- Eu tenho uma faca no bolso da jaqueta.
- Por que raios você...?
- Eu sempre a carrego, para emergências. Como desarmar bombas, ou assassinar terroristas que não querem cooperar.
Sam tirou um pequeno canivete de sua jaqueta.
- Mas... Pessoas como você e Luke não tem algum tipo de... Ligação, ou sei lá? - Perguntou Josh.
- Eu não sou como Luke - Eu podia jurar que ela estava segurando a faca com bem mais força depois do comentário.
Josh também pareceu ter percebido, porque recuou dois passos.
- Só estava sugerindo que...
Sam não deixou que ele terminasse de falar.
- Certo, então você é um popularzinho - Ela estreitou os olhos. - Tiffany também. Isso automaticamente faz de você um idiota como ela?
Prendendo a respiração, Josh andou três passos em direção a Sam. Eles estavam tão próximos que ela provavelmente podia sentir o hálito dele.
- Você tirou essa conclusão por si mesma assim que falou comigo pela primeira vez, não foi?
- O que quer dizer com isso?!
- Além do fato de você ser uma hipócrita cínica? Nada.
Quando a garota levantou a faca, eu juro que meu coração parou. Mas ela apenas a colocou na mão de Josh.
- Faça o que achar melhor com isso. Enfie no olho, sei lá. Vou lá lidar com o sr. Eu Desarmo Bombas.
- Desarmada? - Ergui uma sobrencelha.
- Ah, tudo bem. Vocês não precisam ter medo de Luke.
O sorriso que ela deu ao dizer isso foi tão sinistro que eu me perguntei se ela estava insinuando que, ao invés de termos medo de Luke, deveríamos ter medo dela.

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