Eu ainda estava tentando absorver o que acontecera. Achava que Luke não havia desarmado a bomba corretamente, mas Maddie disse que foi a bomba dos Quatis que explodiu.
Como eles poderiam ter conseguido trocar as bombas em um espaço de tempo tão curto? E sem ninguém perceber?
Nenhum de nós conseguiu tirar aquele cheiro de lixo totalmente, mas dava para o gasto. Maddie reclamou tanto sobre o fedor que Luke se revoltou e jogou um pedaço de maçã podre da bomba na cara dela.
Secretamente, fiquei feliz por ele ter feito isso.
Depois dos quinze minutos que o capitão nos concedera, ambas as equipes se encontraram na beira do lago. Dois troncos de madeira cortados (mas mesmo assim possuíam no mínimo cinco metros de altura) haviam sido fincados no meio da água. Pareciam firmes, apesar de que fosse tecnicamente impossível que estivessem completamente estáveis.
- Uma das coisas que aprendemos na guerra - Começou o capitão Shelton, cruzando os braços. - É o equilíbrio. Ele pode ser muito útil em diversas situações. Por isso, cada equipe deve escolher alguém para se equilibrar no tronco. E também devem escolher um atirador - Ele nos mostrou duas armas de paintball.
- EU ATIRO! - Berrou Barbie.
- A TIFFANY VAI NO TRONCO! - Completou Sam.
- Você não pode me obrigar! - Protestou Tiffany.
- Soldado Preston, você foi escalada. Ou aceita o desafio, ou sei de um tratamento especial para sua pele à base de águas vivas que você vai adorar - O capitão deu um sorriso presunçoso.
Ela mordeu o lábio ao perceber que ele estava falando sério. E então apenas deu seu jeito e subiu no tronco. Shelton deu a arma à Barbie.
- Eu atiro - Decidiu Luke.
- Eu posso ir no tronco - Ofereci, incerta. - Caso ninguém mais queira...
- Tenho treinamento profissional em ballet clássico - Vangloriou-se Maddison. - Meu equilíbrio é 99% perfeito. Seria mais lógico que EU fosse.
- Certo, claro. Pode ir.
Maddie subiu em seu tronco. Ela ficou parada na primeira posição do ballet, Deus sabe por quê.
- E... ATIREM! - Berrou o capitão.
Uma bomba de tinta azul acertou a testa de Tiffany.
- Atirar na outra equipe, soldado O' Connor - Ele ergueu uma sobrancelha para Barbie, que já se preparava para o segundo tiro.
A animação da garota diminuiu consideravelmente.
- É mesmo?! Ah, nem quero mais. Josh, atira aí.
- Mas eu não sei como at...
- É só mirar e puxar o gatilho.
Luke acertou Tiffany umas vinte vezes, mas, por algum motivo, a garota simplesmente não caía do tronco. Me perguntei se o mesmo poderia ser dito de Maddie. Ninguém podia afirmar, já que Josh não acertara um tiro sequer.
- Joshua, você tem que acertar Maddison, e não o tronco - Sam ergueu uma sobrancelha.
- Estou tentando, caramba. Acha que é fácil?
- Na verdade, acho, sim.
- Quer tentar, então?
- Não quero te humilhar.
- É mesmo? Porque eu adoraria vê-la tentar.
- Se insiste... Me dê essa joça.
Sam tomou a arma das mãos de Josh e mirou. Ela fechou o olho esquerdo e passou algum tempo mirando.
- Quando estiver pronta, serial killer - Zombou o garoto.
Sem dizer uma palavra sequer, Sam puxou o gatilho. A esfera de tinta azul voou para fora da arma, por um momento até parecendo um daqueles replays em câmera lenta... Até que acertou em cheio a testa de Maddie, cuja cambaleou para trás e, consequentemente, acabou caindo no lago.
Samantha assoprou a ponta da arma, satisfeita, e tornou a devolvê-la para Josh, que não se deu ao trabalho de dizer nada que aumentasse sua dignidade - ou que a diminuísse.
- E OS QUATIS SÃO OS VENCEDORES DESSA PROVA! - Anunciou o capitão Shelton.
A equipe deles comemorou por um momento, antes que o capitão apitasse e todos tivessem que parar de fazer o que fosse que estivessem fazendo, incluindo respirar.
Maddie e Luke foram os únicos que não perceberam o silêncio repentino.
- Por que está com esse sorriso no rosto? - Acusou a garota, desconfiada.
- Eu só estava pensando no quanto sou grato por ter uma garota com treinamento profissional em ballet clássico na minha equipe. É realmente muito útil.
- Tão útil quanto você, suponho. Ao menos o treinamento de ballet não tem boca.
- Ah, mas você lá no fundo adora o fato de eu tenho uma boca. Se eu não tivesse, você não poderia fantasiar como seria me beij...
- Dá para vocês dois calarem essas malditas bocas antes que eu as retire gentilmente com uma faca de manteiga? - Gritou Sam por cima deles, cerrando os dentes.
- Está com ciúmes, é, Price? - Luke sorriu de forma maliciosa.
- Continue sonhando, Seaton - Ela revirou os olhos. - Talvez sonhar seja algo que você consiga fazer sem que eu tenha que ouvir a sua voz.
- Ela se acha TÃO durona... - Maddie resmungou ao meu lado. Sam não a ouviu. Eu duvidava que Maddison diria algo assim se houvesse a remota chance de a punk ouvi-la.
- Acha que eles vão se casar um dia? - David sussurrou para mim, apontando discretamente para Maddie e Luke.
- Claro. A não ser que se matem antes.
Era uma suposição bem provável.
- ESCUTEM AQUI, MOCINHAS! - Berrou o capitão Shelton. - OU VOCÊS CALAM A BOCA AGORA, OU...
- Ou o quê? - Luke ergueu uma sobrancelha.
- EU LHE DEI PERMISSÃO PARA FALAR, SOLDADO?
- Não - Luke sorriu. - Mas se tivesse dado, eu provavelmente diria que o senhor não precisa gritar para que nós te escutemos... Ou para que o Tibé te escute, no caso. Seja lá onde isso fica.
- Fica na Ásia - Disse Maddie.
- Claro. Enfim. Então, se puder abaixar o tom de voz, eu agradeceria.
- QUER QUE EU FAÇA O QUÊ?! - O capitão se aproximou, irritado.
- QUE FALE MAIS BAIXO!
- O QUE DISSE, MOLEQUE?!
- CALE A BOCA, SENHOR!
Silêncio mortal. Eu sabia que Luke era desprovido de qualquer tipo de sanidade mental, mas mesmo assim...
- Dez flexões - Ordenou o capitão Shelton. - Rápido, molenga.
- Eu estava esperando você pedir - Luke sorriu.
- Então que tal vinte?
- Eu dou trinta.
- Faça logo, imbecil - Sam revirou os olhos.
Luke deu de ombros e tirou sua camisa, deixando à mostra seu peito nu. Ele jogou a camiseta em Sam, que o xingou e jogou a peça de roupa no lago.
Falando de uma forma que não me faça parecer uma fangirl viciada em tanquinhos, Luke estava em uma ótima forma. Tipo... É, ótima.
Eu tinha certeza de que a audiência feminina do programa estava bem feliz por Sam ter jogado a camisa no lago.
Luke tirou o cabelo do rosto e se abaixou, fazendo as flexões ordenadas sem parecer estar se esforçando muito.
- Vinte e nove... Trinta... - Ele contava calmamente. - Trinta e um... E pronto. - E então se levantou.
- Eram só trinta, soldado Seaton.
- É que a última foi dedicada à soldado Price, por ter segurado minha camisa com tanta dedicação durante exatos dois segundos.
Tivemos outras três provas depois daquela. Escalamos uma árvore, fizemos uma competição de natação e atravessamos uma ponte enquanto jogavam patinhos de borracha em nossas cabeças. Eu diria que ser oito da noite, ou algo próximo disso, quando sentamos novamente em volta da fogueira. Havia um banquete exatamente igual ao do almoço nos esperando. Ou seja, eu não comeria nada novamente.
Sentei-me no chão, encostada em um dos tocos de árvore.
- Você não vai comer? - Perguntou-me Sam, cuja também não tinha um prato nas mãos. - Ah, surfistas são todos vegetarianos, sendo tipo uma versão moderna dos hippies?
Ela falava esse tipo de coisa como se esperasse a mesma reação de um "bom dia".
- Surfistas não são todos vegetarianos - Corrigi. - Mas eu sou. Punks são todos vegetarianos, sendo uma versão moderna do Drácula com abstinência de sangue tipo A+?
Percebi o que havia falado tarde demais. Esperava que ela retrucasse, mas, ao invés disso, ela apenas sorriu.
- Punks não são todos vegetarianos - Corrigiu ela, sentando-se ao meu lado. - Mas eu sou.
- Por favor, me diga que você vai começar uma revolução contra o carnivorismo desse programa.
Ela riu um pouco.
- Você não trouxe comida?
- Não era permitido que trouxéssemos.
- E isso te impediu? - Ela ergueu uma sobrancelha. Eu não disse nada, mas minha expressão provavelmente me entregara. - Você come queijo?
Fiz que sim com a cabeça. Ela se aproximou mais de mim e falou a frase seguinte abaixando o tom de voz:
- Dentro do meu baú, ao lado da minha cama, tem alguns sanduíches de queijo. Pode pegar um se estiver com fome.
Relutei um pouco, confusa.
- Por que está sendo legal?
- Por que a surpresa? As pessoas geralmente não são legais com você, ou você apenas acha que sanduíches de queijo são coisas sagradas e pessoais? Enfim, se estiver morrendo de fome, a combinação do baú é 0302.
Todos os meus pensamentos indignos que imaginavam a possibilidade de ela ter trocado de corpo com o David foram aniquilados com a frase seguinte:
- Ah, e mais uma coisa - Ela me fuzilou enquanto se levantava, como se quisesse ter certeza de que eu estava prestando atenção. - Se mexer em alguma coisa, qualquer coisa, naquele baú que não seja os sanduíches... Se olhar para alguma coisa naquele baú que não seja os sanduíches... A coisa vai ficar muito feia.
Ok, isso se parecia bem mais com a Sam. Curiosamente, essa ameaça me confortou ao invés de me amedrontar.
- Ei, Sam - Chamei-a quando ela começou a se afastar. - Se você quiser ficar e bater papo, sabe... Comigo...
- Não precisa - Decidiu ela no mesmo momento, ligeiramente surpresa. - Eu vou... Eu tenho que...
- Ter uma conversa séria comigo - Josh apareceu atrás dela, segurando os dois pulsos da garota. Ele conseguiu fazer isso usando apenas uma mão, já que sua mão era bem grande e forte, e os pulsos de Sam eram bem finos. Não era um gesto afetuoso. Nem ao menos gentil, na verdade. Ele parecia estar apenas se certificando de que ela não fugiria.
- Não era isso o que eu ia dizer - Ela olhou para cima, encarando-o com seus olhos cinzentos.
- Me empresta a Sam por um minuto, Bree? - Ele sorriu para mim de forma gentil.
- Ela é toda sua - Sorri de volta, feliz com a gentileza. Sorrisos gentis não eram algo que eu havia recebido muito desde que chegara ao acampamento.
Josh era, na realidade, muito simpático, o que não era comum em garotos atraentes e populares. Peeta Mellark é uma exceção, o que também não conta muito, porque ele é um personagem fictício (infelizmente).
Eu não tinha uma queda pelo Josh. Era mais como uma pequena admiração, como o que você sente por algum famoso que com certeza nunca irá se apaixonar por você, e pelo qual você não se apaixonará, também, se tiver o mínimo de saúde mental. Mas, afinal, eu desconfiava que todas ali tinham uma quedinha pelo Josh. A única pessoa que eu achava que não piraria se Josh a envolvesse era a que estava sendo envolvida por ele naquele momento. O mundo é tão injusto.
A expressão no rosto de Sam parecia quase entediada enquanto resmungava para que o garoto soltasse seus pulsos.