As coisas nem eram tão ruins na cabana masculina. Digo, com exceção daquele delinquente juvenil ex-presidiário que já chegou tocando terror. Ceder o meu beliche para aquele pedaço de carne sem cérebro também não foi nada legal, mas o que eu podia fazer? Aprendi da pior forma que discutir com caras assim nunca acaba bem. Ao menos ele não estava na minha equipe...
Como se não bastasse, ainda teve aquela comida, se é que podia-se chamar aquilo de comida... Meu estômago é uma coisa muito sensível, e eu tenho intolerância a vários grupos alimentícios, cujos provavelmente estavam no meio daquela coisa.
Eu sentia um enjoo marítimo terrível, por isso já tinha posto coisa demais para fora naquele dia. E a Tiffany ainda me vira correndo para o banheiro no iate - entre todos, a mais linda, loira e perfeita -, o que não fora muito legal.
Claro que uma garota como ela nunca olharia para um cara como eu, mas nem por isso eu queria fazer papel de otário na frente dela.
- Seu cabelo parece molho de tomate - Disse Chloe, que estava passando pela mesa dos Quatis na hora. - Tem gosto de molho de tomate? Posso provar?
Ah sim, e tinha a maluquinha. Ela não era loira, o que era bem irônico, considerando o Q.I dela. Não que eu tivesse algo contra loiras... Loiras são gatas.
- Temos câmeras em exatamente cada centímetro dessa ilha - Continuou Cory, encarando-nos para ter certeza de que estávamos prestando atenção. - Ligadas vinte e quatro horas por dia. Sem privacidade, sem descanso.
- Maravilha... - Josh suspirou, deitando a cabeça na mesa.
- Sigam-me - Cory saiu pela porta.
Três... Dois... Um... Todos nós levantamos ao mesmo tempo e fomos na mesma direção que Cory.
O seguimos por uma trilha de terra por uns dois minutos, até que paramos em frente a algo que não deveria estar em um acampamento.
- O que uma cabine fotográfica faz aqui? - Perguntou David, se aproximando para observá-la melhor.
- Esse é o confessionário de vocês - Contou Cory, animado. - Há uma câmera aí dentro, onde vocês podem dizer para a galera de casa como realmente se sentem. Também será aí que vocês votarão para eliminar um membro da equipe toda vez que perderem um desafio. ANTHONY!
Demorei uns momentos para perceber que havia sido chamado.
- Senhor, sim, senhor!
- Você é o primeiro.
E então ele apenas me jogou dentro da cabine fotográfica.
Era bem apertado lá, então apenas sentei no banquinho e encarei a câmera sem saber o que dizer.
- Bem - Comecei, incerto. - Isso tudo definitivamente não é como eu imaginei. Luke? Um idiota, valentão e sem cérebro. E aquela menina punk também não é flor que se cheire. A surfista? Desconfio dela. Ninguém é tão legal com todo mundo. Ao menos a punk fala tudo o que sente em relação aos outros...
E, antes que eu percebesse, havia posto para fora tudo o que estava remoendo desde a chegada. E devo dizer, a sensação foi maravilhosa.
Alguns outros ficaram para usar o confessionário, e os restantes foram direto para a cabana. Num gesto de extrema bondade, Cory nos dera essa noite de folga antes do início dos desafios pela manhã.
Caminhei calmamente até o chalé dos garotos. Era uma noite serena e agradável, perfeita para reler o sétimo volume de Física Quântica Avançada na varanda.
Quando finalmente me sentei nos degraus e abri o livro, me dei conta de que serenidade não existia ali.
- O que você está fazendo? Posso ver? - Disse David, sentando ao meu lado.
Ele parecia uma criança que comera açúcar demais. Eu torcia para que não fosse o caso.
- Estou lendo, David - Encarei-o, tentando permanecer calmo. - Coisa que prefiro fazer sozinho.
- Ah, claro. Você está lendo... Hmmm... Química?
- Física Quântica.
- Que legal... Eu gosto de animes...
- Animes te ensinam aceleração? Força? Calor? Atmosfera? Equações? Inequações?
- Hm, não.
- Então são inúteis - Dei de ombros, voltando a ler.
Eu realmente torcia para que os desafios envolvessem capacidade mental, assim eu podia vencer e ao mesmo tempo ver o Luke se dar mal. O que mais se podia pedir?
Minha equipe não era muito animadora. Havia a punk, a patricinha gata, a que parecia ter mais força do que todos nós juntos (e não era no bom sentido), o atleta bonitão, e eu, o único cérebro dali.
Sendo assim, eles não poderiam me eliminar. As chances eram bem remotas.
- Onde você vai? - Perguntou David quando Joshua saiu do chalé.
- Banheiro - O moreno respondeu, erguendo uma sobrancelha para o outro garoto.
- Ah...
- Espere - Chamei, confuso. - O banheiro não é no chalé?
- Não. Só tem um, e é ao lado do refeitório - Josh deu de ombros. - Cory nos disse enquanto você estava no confessionário.
Banheiro comunitário. Qual era o próximo passo? Eu teria que dividir meu pijama também?
Minha cama era embaixo da de Josh. Surpreendentemente, o cara foi até bem gente boa quando se ofereceu para dividir um beliche, mesmo que pudesse ter ficado com um inteiro apenas para ele.
Era de certa forma reconfortante, já que até David tinha um beliche próprio e eu não. Ao menos Josh também não tinha. Eu me contento com pouco, ok?
Fui o primeiro a dormir. Imaginei que acordaria com o barulho de Josh subindo no beliche de cima, mas não. Na verdade, não poderia nem afirmar que ele voltara para a cabana no meio da noite.
Sonhei que estava ganhando o programa e um milhão de dólares. Até que os livros que eu não terminara de ler se revoltaram e começaram a correr atrás de mim... Oi?
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