sábado, 19 de janeiro de 2013
Adolescentes Selvagens; Capítulo 6: Brianna
Eu cheguei à cabana Oeste querendo paz. Cheguei mesmo. Se eu tinha esperanças de que nós garotas iríamos dividir segredos, comer marshmallows e pintar as unhas umas das outras? Tinha.
Mas todas elas foram destruídas e esmagadas quando eu abri a porta.
- Eu não posso dormir perto da janela - Disse Tiffany, impassível.
- Você vai dormir aí e pronto - Decidiu Barbie, de braços cruzados.
- Oi, gente... - Abri um sorriso acanhado. - Eu sou a Brianna...
A única que se virou para falar comigo foi Chloe.
- Olá, companheira de aventuras! - Ela veio correndo e me deu um longo abraço.
- SUA BRANQUELA FRESCURENTA DOS INFERNOS!
- OLHA QUEM FALA! Sua... Sua aspirante a estrela do rap, dançarina de boate de quinta categoria, sua... sua...
- Qual é, gente, é só o primeiro dia... - Tentei ajudar, atraindo a atenção de Barbie e Tiffany.
- Eu espero que estejam filmando isso - Sam, que até agora estava quieta no beliche de baixo no fim do quarto lendo um livro sorriu de forma maliciosa.
- Estamos! - Cory berrou ao longe em seu amado megafone.
- Certo, eu fico na janela - Ela fechou o livro, caminhando até as duas garotas - Tiffany pode ficar na cama da frente e Barbie na cama em que eu estava, assim vocês ficam bem longe uma da outra.
Agradeci silenciosamente por ela ter feito isso.
- A surfista pode dormir em cima de mim - Ela completou, apontando para mim. - Não que você tenha muita escolha, é claro.
- Em cima de você está ótimo! - Sorri animada e joguei minha mala azul no beliche de cima à direita.
- Muito bom - Ela se sentou em sua cama. - Agora, caso a srta. Certinha não decida que tem medo do escuro, ou sei lá, acho que acabamos.
- É chamado nictofobia, e é um problema muito sério! - Maddie se defendeu, encolhida em seu colchão.
Todas olharam para Maddie por um minuto, imaginando se ela tinha mesmo medo do escuro.
- Eu só estava zoando com a sua cara - Sam diminuiu o tom de voz, calma. -, mas se você está falando sério...
- Eu não consigo dormir com a luz acesa - Tiffany se pronunciou.
- Então vá dormir no meio da floresta - Barbie revirou os olhos. - Tenho certeza de que ninguém aqui se importaria.
- Por que você não vai? Quem sabe assim você pararia de sugar todo o oxigênio do quarto!
- Calem a boca, desmioladas - Sam ordenou, ainda calma e controlada. - Eu não vim até aqui para ouvir vocês discutirem sobre uma lâmpada idiota, ou uma janela estúpida.
Havia algo no tom de voz dela que fazia com que todas obedecessem. Ela estava sempre calma e calculista, como uma bomba relógio que poderia explodir a qualquer momento.
De alguma forma, seu tom calmo conseguia ser ainda mais assustador do que se ela estivesse aos berros.
O único som que se seguiu à ordem foi o dos coturnos de Sam batendo no chão enquanto ela saía da cabana.
Por mais que tivéssemos certeza de que a punk não estava mais nos ouvindo, ninguém ousou abrir a boca.
Então apenas desfizemos as malas e fomos para o jantar.
Se eu mandasse no mundo, recomendaria que todos surfassem. É extremamente relaxante e estimulante, e surfistas são bem mais pacíficos do que os outros grupos de pessoas.
As garotas daqui decididamente precisavam da terapia do surf.
Estava caminhando sozinha até o refeitório quando Maddie me chamou:
- Ei, Brianna!
- Olá, Maddison!
- Posso caminhar com você?
Maddie era sempre cordial demais, educada e preocupada com a reação das pessoas, quando causada por seus comentários. Ela era como um oposto ambulante da Sam. Não que eu não gostasse da Sam, o método de terror dela estava de certa forma impondo a paz, afinal.
- Claro - Sorri.
- O que está achando do acampamento?
- Ah, não tenho problemas com ele, sabe - Dei de ombros. - Costumava ir a um acampamento de verão quando era mais nova.
- Mas é claro que você preferiria um resort, certo?
- Ah, eu gosto daqui...
Pude ver em seu semblante que ela estava esperando que eu começasse a rir. Mas era verdade, eu gostava de acampamentos. Cantigas em volta da fogueira, canoagem, marshmallows, a reunião fraternal com as colegas de quarto... Era divertido.
- Ei, Sam! - Ouvi a voz de Tiffany atrás de mim.
Maddie me puxou, fazendo com que ficássemos para trás, assim ela poderia ouvir a conversa.
- Que foi, Sharpay? - Sam se virou para encará-la, visivelmente irritada.
- Sabe, eu estava pensando... Nós somos duas das competidoras mais fortes aqui - Ela fitou a garota bem fundo. - Se jogássemos juntas, seríamos invencíveis.
- É muito tentador - Sam forçou um sorriso. - Mas eu jogo sozinha.
- Mas já que estamos na mesma equipe, deveríamos nos ajudar, amiga.
- Ah, é! Deixe-me pensar... Hm, não.
Dito isso, ela saiu andando.
- Perdeu, loira - O garoto delinquente, Luke, sorriu de forma maliciosa para Tiffany enquanto passava. - Eu, porém, estou disponível.
Tiffany revirou os olhos e saiu andando.
- Aquela gótica me dá medo - Comentou Maddie, mordendo o lábio.
- Medo impõe respeito e ordem - Luke deu de ombros. - Funcionou das primeiras duas vezes em que fui preso.
Sam não me dava medo. Luke, por outro lado, era aterrorizante.
Todavia, Tiffany percebera mais rápido o que todos ali tinham que concordar: Era melhor ter Sam ao seu lado do que contra você.
O que era exatamente o meu caso, já que ela era um Quati e eu um Guaxinim. Mas isso não queria dizer que nos odiaríamos, certo? Ainda podíamos ser amigas... Não é?
Sentamos à mesa de jantar por equipes. Me sentei ao lado de Maddie enquanto tentava desligar minha cabeça da briga de Barbie e Tiffany que estava ocorrendo na outra mesa. Afinal, quem fora o imbecil que colocara aquelas duas na mesma equipe?
- O jantar está servido! - Anunciou Cory.
Nos dirigimos até uma bancada com pratos e talheres. Havia uma mulher atrás da bancada, cuja imaginei ser a chefe da cozinha. Pesava no mínimo 150kg, e a rendinha em seu cabelo não segurava todas as mechas oleosas e crespas, mas esse não era o maior problema.
A cozinheira tinha uma verruga na ponta do nariz. Não, não era uma verruga. Era uma senhora verruga, uma verruga-mor, era a mãe de todas as verrugas-mor...
Senti meu estômago embrulhar ao ver aquilo. Então apenas peguei um prato e fiquei olhando para ele.
A cozinheira pegou uma colher enorme e jogou uma coisa no meu prato que se assimilava vagamente a comida. Estava mais para um... Grude? Uma massa branca e nojenta que mal queria se soltar da colher.
Forcei um pequeno sorriso nervoso.
- O que é isso?
- É o seu jantar, loira - Ela se debruçou na bancada, me fuzilando com aqueles olhos pequenininhos que quase sumiam naquela cara de buldogue. - E você não vai comer mais rápido se eu disser o que tem aí.
- Tem carne nisso aqui? - Sam perguntou, olhando para o seu grude. - Porque eu não como carne.
- Ah, me desculpe, srta. Amiguinha dos Animais - A mulher fez algo com o rosto que talvez fosse uma tentativa de sorriso. - Deixe-me pegar um prato especial para você, está bem?
E então ela apenas jogou mais do grude no prato de Sam.
Eu tinha sérias dúvidas de qual das duas era mais mortal: A gótica ou a cozinheira maléfica.
- Eu... Eu vou lá comer, sim? - Abri um sorriso acanhado, indo para a mesa.
- Já devia ter acabado de comer, soldado - A chefe disse antes de voltar sua atenção para a outra garota.
- Não pode me obrigar a comer isso! - Sam protestou, impassível.
- Eu cozinhei isso aqui com todo o amor e carinho - A mulher cerrou os dentes. - E não foi para uma punk esquisita e revoltada decidir que vai dar uma de diva e não comer.
Silêncio absoluto. Todos prenderam a respiração, esperando para ver a reação de Sam.
- Ótimo - Ela pegou seu prato, dando as costas à cozinheira. - A vigilância sanitária vai fechar esse lugar uma hora dessas, mesmo.
Pude perceber que aquilo não era realmente tudo o que ela queria dizer. Talvez tivesse se segurado por ser o primeiro dia, ou por estar curiosa para ver que tipo de intoxicações alimentares aquela coisa ia dar nos outros participantes.
- A comida da prisão é melhor - Luke sussurrou para Sam quando quando ela passou.
- Com exceção de ficar trancada em uma cela com você, qualquer coisa é melhor - Ela rebateu, também baixinho.
Eu não sabia se devia comer aquilo com uma colher, um garfo, ou apenas pegar um canudinho e sugar o conteúdo. Acabei me decidindo pela colher.
- Existe... Existe alguma lei sobre isso, não é? - Maddie deu um sorriso fraco, olhando para seu prato. - Tipo... Tem que haver alguma lei.
- Não tem - Luke deu de ombros.
Maddie ergueu uma sobrancelha.
- E desde quando você sabe algo sobre leis?
- Só conheço as que eu quebrei - Disse ele. - O que se resume a todas elas.
Parecia convincente. Depois que finalmente consegui fazer a colher desgrudar da... Comida, chamemos assim, tampei meu nariz e corajosamente enfiei uma grande quantidade daquilo goela abaixo.
Voltou tudo no mesmo instante, mas eu tinha que ser forte. Todos ali estavam comendo, e eu não podia me dar ao luxo de ser o elo fraco do time. Não sou Einstein nem nada, mas sabia que o elo fraco era sempre candidato à eliminação.
Quando todos acabaram de comer, Cory voltou a falar:
- Espero que tenham gostado do jantar - Ele abriu um grande sorriso triunfante. - Certo, Sam?
Em resposta, Sam resmungou algo que caracterizei como um palavrão.
- Esse é o espírito! E é ótimo que tenham gostado, porque essa vai ser a refeição de vocês pelas próximas oito semanas!
Houve uma ocasião onde eu tinha quatorze anos e me perdi na floresta. Fiquei lá por dois dias sem comer até que os guardas florestais me acharam. Então... Se eu comesse a cada dois dias, durante sessenta dias... Certo, não era muito animador.
O jeito era engolir e pronto. Não nos matariam em rede nacional... Não é?
Afinal, era a primeira temporada do programa. A audiência era bem instável. Não que eu entendesse muito de programas, ou audiências, mas... Ah, vou ficar na minha.
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