sábado, 19 de janeiro de 2013
Adolescentes Selvagens; Capítulo 5: Luke
Eu estava associando a coisa toda muito bem. Não era de todo ruim, considerando que uma desistência resultaria em prisão. De novo.
O outro iate, que continha os outros cinco participantes, finalmente estava próximo o bastante para que pudéssemos ver quem estava nele.
Localizei na polpa do iate uma garota loira, alta e magra, como uma daquelas garotas gatas de filmes de festas do pijama. Vestia uma blusa branca de renda, saia de cintura alta e um salto médio. Seu cabelo dourado balançava por causa do vento e reluzia. Por um minuto pensei que ela estava acenando para mim, mas depois decidi que não.
- Ei, Sam - Chamei a garota, que estava na proa do iate com fones de ouvido no último. Cantava Guns N’ Roses baixinho. A gata tinha bom gosto. - Acho que estão te chamando ali no outro iate.
- O nome dela é Tiffany - Foi tudo o que ela disse. - É toda sua.
Acenei para a tal Tiffany e sorri. Ela bufou e saiu andando até não estar mais no meu raio de visão.
- Valeu por isso - Sam sorriu de forma marota.
Me aproximei dela, ficando ao seu lado na proa do barco.
- Tente alguma coisa e eu te jogo no mar - Ela avisou, calma.
Fingi estar ofendido.
- Eu jamais faria isso!
- Certo, guarde sua indignação para alguém que se importe.
- Você fica tão gata quando é rude com as pessoas.
- É, eu faço muito isso - Ela me encarou por um minuto. - Afinal, por que ainda está aqui? Vaza.
- Você não se parece muito com o tipo de pessoa que se inscreveria para um troço desses.
- Porque ela não se inscreveu - Cory berrou com um megafone do outro iate.
- Se desistir, vai ser mandada para a prisão também? - Abri um sorriso malicioso.
- Não - Ela forçou um sorriso. - ...é da sua conta.
- Eu pus fogo em uma cabine telefônica, nada que venha de você me surpreenderia.
- Por que você fez isso?!
- Gosto de ver as coisas queimarem - Dei de ombros.
Sam riu, debochada.
- Você é psicótico - Decidiu, indo para o interior do barco.
- Vou tomar isso como um elogio!
- Não conte com isso! - Gritou, já longe.
Revirei os olhos, ligeiramente frustrado. Resolvi me aproximar do outro cara, James... Ou seria Josh?
Apostei em Josh.
- Ei, Josh! - Chamei, parando ao seu lado. Ele estava andando sem rumo pelo iate.
Josh podia ser um mauricinho, atleta, excessivamente otimista, mas... Ele era o único cara aqui.
- Oi... Luke - Ele sorriu depois de um momento. - Por que está com essa cara?
Antes que eu pudesse responder, ele riu.
- Conheceu a Sam? - Ergueu uma sobrancelha. Não respondi. - É, imaginei.
- Qual é o problema dela? - Franzi o cenho.
- Sei lá - Ele deu de ombros. - Ao menos ela não é totalmente pirada.
Ao dizer isso, ele apontou discretamente para a Chloe.
- Aquela garota definitivamente tem problemas - Concordei, torcendo o nariz.
- Acho que gente normal não dá audiência - Ele abriu um sorriso maroto.
- Será que estão nos filmando agora? - Olhei em volta, procurando câmeras.
- E qual o problema de estarem? Vamos ser filmados pelas próximas oito semanas.
- Não quero que os foras que a Sam me deu apareçam em rede nacional - Fiz uma careta.
- Ah, não se preocupe. Não deve ser pessoal. Já comigo, é pessoal - Ele riu.
- Deu em cima dela?
- Não - Ele deu de ombros. - Ela simplesmente me odeia. Ei, Sam!
Josh abriu um grande sorriso, acenando alegremente para a garota, que estava comendo pizza.
Sam o fuzilou por um minuto e cerrou os dentes, dando uma mordida raivosa no pedaço de pizza como se imaginasse que era o coração de Josh.
- Eu também te amo, Sam! - Ele gritou, ainda sorrindo.
Ela revirou os olhos e saiu andando.
- Definitivamente é pessoal - Eu ri, dando um tapa nas costas dele. - Me sinto melhor agora. De qualquer forma, tem uma garota bem gatinha ali no outro iate.
- Cuja também te deu um fora?
Dei de ombros.
- Hoje não é meu dia de sorte.
- Estamos chegando, seus molengas!
Isso foi Cory berrando, novamente com seu megafone. Olhando para frente, localizei uma pequena ilha.
Quando o iate embicou, tudo o que consegui pensar foi que aquilo definitivamente não era um resort.
Era cercado por um floresta enorme e espessa. Havia uma fogueira ao centro, cercada por bancos que se resumiam a tocos de madeira. Também haviam duas cabanas de madeira azul-calcinha descascadas que pareciam prestes a desmoronar a qualquer minuto. À direita, via-se algo que lembrava um refeitório, cujo não estava em condições melhores do que as cabanas. O cheiro que tomava conta do ar lembrava esgoto, porém com um toque de cera de ouvido e cecê. Tendo sido preso três vezes, eu não costumava reclamar, mas...
- Bem vindos ao Acampamento Adolescentes Selvagens - Cory abriu um grande sorriso.
Ao descer do iate, Tiffany simplesmente deu um berro que era uma mistura de frustração, terror, pânico e indignação. Um berro estridente, longo e irritante o suficiente para fazer com que todos nós quiséssemos rolar no chão e implorar para parar.
- Cale a boca, aspirante a princesa do abacateiro - Berrou uma garota desconhecida ao meu lado, irritada.
O silêncio era absoluto, até Sam o quebrar:
- Obrigada por isso - Ela suspirou, fitando a garota. - Sou a Sam.
- Barbie.
Barbie? Sério?! Cara, a garota era enorme, e parecia capaz de quebrar os ossos de qualquer um dali com apenas uma das mãos. Se comparada a ela, Sam parecia uma princesa de contos de fada da Disney.
Tiffany não parecia estar tão comovida.
- Que droga é essa?! Disseram que ficaríamos em um resort! Isto não se parece nada com um resort! - Ela berrava indignada.
- Ela está certa! - Berrou Maddie ao meu lado.
Maddie, que vestia um suéter e uma calça jeans capri, parecia prestes a voar no pescoço de Cory.
- Não, isso é demais - Sam decidiu, se virando para voltar ao iate. - Adeus, perdedores.
- Ah, pode ir se quiser - Cory sorriu para ela. - Aproveite e diga ao capitão para te deixar direto no reformatório mais próximo. Ordens judiciais, lembra?
- Reformatório? - Ri, debochado.
Ela parecia prestes a me dar um murro, mas se conteve.
- E quanto ao resto de vocês, exceto o Luke, que vai direto para atrás das grades, vocês assinaram um contrato.
- Aqui é um acampamento de verdade? - Perguntou um dos garotos do outro iate. Era bem mais baixo que eu, e parecia ter onze anos. Sua voz era bem aguda e infantilizada. - Que muito louco!
- Ainda bem que alguém aqui está animado - Sam revirou os olhos, tomando a dianteira. - Vou desfazer as malas.
- Mas ainda temos que fazer um tour! - Gritou Cory enquanto ela se afastava.
- Eu não ligo!
- Rebeldes... - Ele bufou. - Certo, dane-se o tour. Se virem.
- Você... Vai dividir as equipes? - Maddie perguntou, cautelosa.
- Ah, sim - Cory pegou uma lista em seu bolso. - Quando eu chamar seu nome, dê um passo à frente.
Tiffany
Barbie
Josh
Anthony, o garoto ruivo cheio de sardas com cara de idiota
- ...E a srta. Revoltada - Cory terminou, fuzilando a cabana. - Vocês são, a partir de agora, os Quatis Indomáveis.
- Quatis? - Barbie ergueu uma sobrancelha. - É sério isso?
- O que são catis? - Perguntou Chloe ao meu lado.
- Quatis - Corrigiu Maddie.
- Estou quase certo de que são mamíferos - Respondi, me sentindo bem esperto de repente.
- Os restantes - Continuou Cory. - Luke, Maddie, Chloe, David e Brianna, vocês são agora os Guaxinins Explosivos.
- Por que tem duas garotas a mais na ilha? - Indaguei.
- Porque elas eram bem mais interessantes do que vocês - Cory me encarou, sério.
Fiquei calado depois daquilo.
- Os garotos ficarão na cabana Leste, e as garotas na Oeste - Ele continuou, apontando. - Suas bagagens já estão lá. Vocês têm vinte minutos antes do jantar.
Todos saíram correndo, mas eu não entendi o motivo. Então apenas andei calmamente até a cabana Leste. Ao abrir a porta, me deparei com três beliches (o que não fazia muito sentido, já que éramos só quatro).
- O terceiro beliche é inteiramente meu - Estipulei, sério.
- Mas... - O garoto magricela e desajeitado, Anthony, começou a falar.
Encarei-o com meu olhar de valentão. Eu o aperfeiçoara bastante na prisão e no reformatório.
- Não estou pedindo a sua permissão. Agora, se puder sair da frente...
Foi o que ele fez. Caminhei até o terceiro beliche e joguei minha mala na cama de cima.
Ninguém mais protestou. Ótimo, já estávamos nos entendendo.
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