Estou de volta. Sentiram saudade da minha narração? É claro que sentiram. Ninguém faz comentários cínicos tão bem quanto a rebelde aqui.
Eu disse a verdade a Josh, em partes. Não tinha medo de ficar sozinha em florestas. O caso é que eu jamais fora muito à florestas. Das vezes em que eu fora... Bem, digamos que não tive muita escolha.
Tentei pensar nessa ida à floresta como todas as outras. Afinal, por que essas árvores tinham que ser tão fechadas? Eu mal via o sol dali! O que também não era grande coisa, porque eu não conseguia nem ver meus próprios pés com clareza.
Não poderia dizer com certeza há quanto tempo estava caminhando. Todas as árvores pareciam iguais, então eu perdera a noção do tempo. Eu sabia bastante sobre mitologia grega, mas a pista simplesmente não entrava em minha cabeça. Algo ali não se encaixava.
"A curiosidade não é pecado, porém certos hábitos devem ser evitados. Se a contaminação do mundo for o preço, a que objeto não deve-se demonstrar afeto?"
Era vago e incompleto. Era como se eles não quisessem que eu descobrisse quem eu era. Fora que os versos nem sequer rimavam direito. Eu estudara tudo o que havia para saber sobre deuses... Como poderia estar deixando algum detalhe passar?
Vez ou outra eu me pegava colocando a mão no bolso de trás de minha calça jeans. Gostava de ficar sozinha, mas não solitária. Uma parte de mim queria apenas apertar o botão vermelho de meu walkie-talkie e conversar com Josh, mesmo que fosse... Josh.
Mas eu me segurava. Primeiro porque sabia que estava sendo filmada, não importava o que Cory dissesse. Eu não podia demonstrar fraqueza. Nem para o público, nem para Josh, e muito menos para Tiffany. Não depois que eu recusara a oferta de aliança dela.
Algo me dizia que me deixar sozinha na floresta era apenas o começo de sua vingança. A única coisa que me fazia sentir melhor era pensar em como Tiffany provavelmente estava dando em cima de Josh das formas mais escrotas possíveis. Era ainda melhor pensar nas caretas que ele devia estar fazendo.
A não ser que ele sentisse algo por ela, claro. O que era pouco provável, considerando a forma como ele reagiu quando descobrira que teria de ir com ela nesse desafio.
Josh parecia se esforçar para me irritar. Ah, isso se não considerarmos a pequena irmandade dele e de Luke no iate enquanto me zoavam.
Que classe, Joshua. Que classe. Claro que eu já esperava isso de Luke, e deveria ter esperado isso de seu amiguinho filhinho de mamãe popular também.
Mas, estupidamente, eu confiava em Josh. Confiava que ele viria se eu o chamasse. Lá, lá no fundo, mesmo que nem a pior das torturas medievais pudesse me fazer admitir em voz alta, uma parte de mim achava que talvez Josh fosse um cara legal. Talvez.
"A curiosidade não é pecado, porém certos hábitos devem ser evitados..."
Esses dois versos eram a única coisa que estava mantendo meu walkie-talkie no bolso, por mais que eu soubesse que eles não tinham nada a ver com a solidão.
Meu refúgio era pensar que Maddie também estava na mesma situação, e parecia estar aguentando bem. Afinal, eu ainda não a tinha ouvido gritar uma vez sequer.
Cory havia mencionado deuses que talvez pudessem me ajudar. Resolvi procurá-los, afinal, que escolha eu tinha?
Mudei a rota e comecei a seguir pelo Leste. Percebi depois de um tempo que estava na parte de baixo da tirolesa, o final dela. É, talvez houvesse algo na tirolesa.
E foi então que ouvi o grito.
- DAVID!
Eu conhecia aquela voz. Era a garota surfista. E ela estava em apuros. Me escondi atrás de uma árvore para ver se a encontrava.
Tudo o que vi foi um grande urso pardo, mas imaginei que a garota estava atrás dele. Ouvi outro grito, mas dessa vez vinha de um borrão loiro na tirolesa. David estava vindo ao resgate.
Eu podia ter simplesmente dado o fora dali e deixado que eles se resolvessem, mas não fiz isso.
Primeiro esperei para ver como David se sairia. Ele estava indo bem, até que levou uma patada do urso e desmaiou.
- EI! SEU MONSTRENGO! - Gritei antes que pudesse me conter.
O que raios eu estava fazendo? Era um urso pardo, e não Luke ou a chefe da cozinha. Eu podia morrer. Talvez morresse, mesmo. Provavelmente morreria.
Respirei fundo e joguei um galho no urso.
- Sam? - Brianna levantou uma sobrancelha, incrédula.
- Brianna! Que bom te ver, garota! Cheguei a tempo para o chá das cinco? CALE A BOCA E CORRA, IDIOTA!
Ela assentiu por um momento, paralisada, e depois obedeceu.
Aproveitando os momentos de confusão do urso, saí correndo também.
- PARA O LAGO! - Gritei.
Pulamos no lago sob a tirolesa logo depois. O urso rugiu, frustrado, e mudou a direção.
- David - Brianna lembrou.
- O urso está indo para o lado contrário. Vamos esperar que se afaste, e depois podemos ir buscar o sr. Frescurento.
Quando saímos da água, ela me fitou por um minuto.
- Você salvou a minha vida.
- É, tanto faz.
- Não, é sério. Eu estaria morta se você não estivesse chegado. Por que fez isso?
- O quê?
- Me salvar. Nem sou da sua equipe.
Ri, debochada.
- Ah, claro. Eu realmente levo em consideração a equipe de uma pessoa num reality show estúpido quando vou defendê-la de um urso pardo - Revirei os olhos e dei um tapa no rosto de David. - ACORDE, OTÁRIO!
David resmungou alguma coisa, mas não se levantou. Encarei Brianna.
- Certo, cuide aí do seu cavaleiro, eu tenho um desafio para vencer.
Quando estava me distanciando, Brianna falou:
- Eu não te agradeci devidamente. Obrigada, Sam.
- Esquece isso, tá?
- Não posso.
- Faça um esforcinho.
Andei por mais alguns minutos. Já havia me distanciado de Brianna e David. Qual é. Eu podia não ser a pessoa mais simpática do mundo, mas não tinha coração de pedra.
Tudo estava bem, até que alguém me puxou.
- EI! - Berrei antes de qualquer coisa.
Quando me virei para ver quem era, descobri que era a chefe da cozinha. Mas ela estava vestindo uma roupa de leão dos ombros aos pés.
- Você ajudou a loirinha e o idiota? - Ela me encarou, ainda me segurando.
Depois de ter enfrentado um urso pardo, eu definitivamente não tinha medo de uma cozinheira mal-encarada.
- Isso não é da sua conta.
- Eles não eram da sua equipe.
- Continua não sendo da sua conta.
- Sabe, revoltadinha - Ela estalou o pescoço. - Eu não gosto de você. E não gosto nada de traidores. Infelizmente, você consegue ser os dois.
Tudo aconteceu muito rápido. Eu bati, chutei, gritei, mas nada adiantou. Afinal, ela era cento e cinquenta quilos de pura gordura. Eu era como um palito de dente sem ponta perto daquilo.
Então, antes que percebesse, eu estava amarrada a uma árvore.
- Talvez assim aprenda a não brincar de agente dupla - Ela me fulminava enquanto dava o último nó.
"Brincar de agente dupla" era a última coisa que eu estava fazendo, mas não seria útil discutir. A mulher me deu as costas por um minuto para buscar mais corda.
Aproveitei a deixa. Eu definitivamente não queria pedir a ajuda de Josh, mas que escolha eu tinha? Só Deus sabia que tipo de tortura aquela psicótica tinha em mente.
Consegui ativar o botão vermelho do walkie-talkie depois de algumas tentativas. Eu deveria ter me controlado, mas simplesmente comecei a balbuciar, desesperada.
- JOSH! Caramba, vem logo, estou presa, sério, estou desesperada, não sei o que essa louca preparou pra mim, eu... Eu preciso de você, vem logo, pelo amor de Deus...
Admitir que precisava de Josh pareceu ainda pior do que qualquer tortura, mas apenas tive que engolir meu orgulho. Rezei baixinho para que ele me ouvisse.