sexta-feira, 15 de julho de 2022

Bobeira

 

você faz tudo de bobeira

entra na cena sem querer nada

voz arrastada, calmaria mineira

cara solteira, mas a mão já casada.


entra na vida pra ser figurante

num segundo instante já rouba o papel

um céu que cega num raio berrante

é príncipe ou sapo por baixo do véu?


contigo tive os dias mais lindos

incontáveis tipos de infatuação

no meu coração, é sempre bem-vindo

digo, só enquanto recebo atenção.


porque quando sai, o vazio é grande

e gigante é a dúvida que paira no tempo

sendo que já achei que nosso futuro brande

ainda é poético esse tal de silêncio?


quando volta, é como se nunca fosse

me trouxe as sílabas mais gentis

e ri com o sorriso mais doce

põe nos meus olhos um novo verniz.


estou fadada a esse círculo vicioso?

amoroso, cordial, indiferente

fala da gente e depois, temeroso

desaparece como um devaneio inconsciente.


quando te esqueço, vou muito bem

e nem me lembro do que fazia falta

mas com uma migalha o sentimento vem

e é como ignorar a maré mais alta.


a verdade é que eu sempre quis mais

do que você foi capaz de prover

a decisão é se o tanto que traz

é suficiente para aqui me manter.


se consigo levar numa boa

na proa, sem criar expectativas

cativa como você, à toa

sem abrir novas feridas.


enquanto não sei a resposta

te levo comigo como dá

mas, amigo, minha aposta

é de que temos mais história pra contar.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Ela

"oi

posso entrar?”,

Ela diz

gentilmente

como quem oferece um abraço.


“você está sozinha agora

mas não vai mais ficar”,

promete

se ajeitando

acariciando meus cabelos

e me isolando de todo o resto.


Ela visita de tempos em tempos

e se eu deixar, Ela se alonga

ganha seu próprio quarto

começa a esvaziar a geladeira.


de vez em quando, Ela traz pensamentos

que de cara não sei bem se quero

mas talvez sejam meus pensamentos

não sei mais o que sou eu o que sou Ela

não sei mais o que sou.


mas vamos eu

e Ela

porque a solidão é minha e não dos outros

e é melhor que termine assim.


hoje ouço batidas na porta

elas são cada vez mais insistentes

o que era ritmado já se tornou caótico

como as batidas de meu coração.


e eu digo

“eu sei que você está aí

não quero tomar café hoje

por favor, hoje não.”


as batidas cessam

e penso que Ela se foi

mas logo ouço suspiros

e um riso suave e entretido.


“mas

como você vai continuar me culpando

pelo seu próprio fracasso em viver

se não me deixa mais entrar?”

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Considerações sobre 2018

Não foi o ano ideal. Na verdade, muitos insistem (com alguma razão) que 2018 foi vários anos em um.
Pela primeira vez, escrevo no dia 30 e não 31, porque amanhã estarei ocupada vivendo. Não me lembro de alguma vez ter estado tão animada para a virada como estou agora.
Descrevi 2018 como amadurecimento, muito no sentido que crescer é ver seus heróis se tornando humanos. E, no meu caso, se tornando humanos que me decepcionaram.
Voltei para o meu lugar dos sonhos e foi o maior dos pesadelos. Minha faculdade dos sonhos mostrou-se nem céu nem inferno, mas sim, apenas mais um pedaço mundano de mediocridade.
Sair do ensino médio não me salvou, mas eu não voltaria nem pensar. Se 2017 foi um ano de excessos, 2018 foi o ano de aproveitar. Um aproveitamento que envolveu controlar vícios e, no limite, entender e aceitar meus limites como algo que não me diminui. Substituí a jornada em busca de tudo pela jornada por autoconhecimento. Não quero ser “a mais” nada, só quero ser no nível que me convenha.
Passei mais tempo longe de casa do que dentro, conheci novos lugares e acidentalmente ganhei um segundo lar.
A saúde pesou. Termino o ano com preocupações físicas, além da cruzada psicológica de sempre. A ansiedade me cobrou muito. Parece estar cada dia mais difícil atender suas expectativas.
Adentrei mais na militância. Conheci pessoas (e, em especial, mulheres) dedicadas a mudar o que não podem aceitar. Hoje sou presidente do Centro Acadêmico e me exausto tentando garantir que as ingressantes de 2019 tenham, no mínimo, mais suporte do que eu e minhas colegas tivemos.
Fiz extensão popular. Tentei sair da alucinação alienada que é a academia. Não senti que aprendi nada que pudesse ser transmitido. Conhecimento tem valor se não é passível de transformação?
Senti minha evolução enorme no tênis de mesa, apesar de não ter conquistado meu objetivo final.
Conquistei amizades improváveis ao mesmo tempo que sofro com afastamentos que não previ. Criei um amor intenso por Foster The People. Mantive meu amor intenso por shows. Virei uma grande sommelier de caipirinhas.
O ano trouxe experiências adultas, além das decepções: comecei a ganhar meu próprio dinheiro, aprendi a dirigir, planejei duas viagens, chorei na fila do banco.
Chorei, chorei, chorei. Descontroles hormonais? Transtorno psicológico? Puro drama? Não sabemos.
O moço com cachos e uma família legal veio. Não há como mentir: ele foi e é o brilho do meu ano. Eu não mudaria uma coisa sequer, porque foi o meu conjunto duvidável de decisões que me trouxe para esse beijo à meia noite. E que beijo vai ser!
Termino o ano com uma foto nossa na carteira. 2019 tem um senso agridoce de continuidade: a parte doce é saber que não o inicio sozinha.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Uma pilha de papéis

uma pilha de papéis
jogada
no chão
do escritório.

em meio à ordem
corporativa
produtiva
impessoal,

um caos
ao canto.

o bege infinito perturbado
por essa bagunça vermelha e branca
irritavelmente banal.

cupons de desconto
alguns mapas turísticos
adesivos brilhantes
e uma sacola plástica
do carrefour.

em meio a cafeteiras disfuncionais
estantes com livros grossos
e telefones que não param de tocar,

uma pilha de papéis
jogada
no chão
do escritório.

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Cotidiano

já abro um pequeno sorriso
quando meus olhos o encontram
com seus fones de ouvido
sentado na mureta
mirando o chão.

o sorriso logo é retribuído
conforme me aproximo
como quem nada quer.

“oi, licença
que engraçado!
você é a cara do amor da minha vida”

ele ruboriza
“que coincidência
você é a cara do amor da minha vida”

nos abraçamos
e dizemos exatamente ao mesmo tempo
“como você tá?”

rimos como os dois idiotas que somos.

saber que trazemos essa doçura
para a vida um do outro
é o que nos torna mais bonitos.

esses momentos podem parecer banais
mas significam tudo.

o amor não é feito de gestos enormes.
o amor é cotidiano
quão rotineiro é o seu carinho?

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Segura a minha mão

segura a minha mão
porque não só de palavra se vive.

segura a minha mão
porque eu vejo o seu medo

segura a minha mão
porque o seu medo nunca vai ser maior
do que o meu amor por você.

a nossa maior resistência
é puramente sobreviver.

então segura a minha mão
e não solta mais.

Quem você é

“eu sei que você gosta de quem eu sou
mas nem sempre eu sou esse cara
nem sempre sou quem você gosta”

“meu amor,
quem você é só cabe a você.”

silêncio.

“quero ser a pessoa que fica na sua vida.”

“quero que você sempre queira ficar.”